Não gosto da ansiedade e se a sinto a pairar muitas vezes em mim, algo não está bem. Remeto-me sempre ao meu lugar, meu espaço. Não fujo. Não sou de argumentar coisas que só eu sinto. Nenhum argumento mesmo que venha de alguém inteligente, me faz mudar, nem me faz pensar de outro modo. É o meu jeito. Não gosto de sentir ansiedade em mim. Dizem, deixa o corpo sem sentires e o que se sente é mau para qualquer pessoa. Eu deixo de sentir e, eu gosto de viver a sentir.
Vejo-me dentro de um espaço inseguro. Acompanham-me no mesmo espaço. Não sei quem é, não sei porque apareci ali naquele lugar. Abraça-me! Sinto-me abraçado! Abraço sem jeito. Apalpo no abraço com o exercício de encontrar melhor lugar, quiçá, melhor companhia na vida que elegi.
E agora o que faço com ela? Que faço eu aqui? E agora? Pergunto de novo só a mim, a minha consciência, sinto, abandona-me. De repente sinto-me só. A ansiedade nasce.
A consciência diz-me: Faz o que o corpo te aprouver fazer. Mas não me apetecia fazer nada. Tenho o grande defeito de não conseguir ter uma erecção com a mulher que conheço há muito pouco tempo. Preciso de estar apaixonado ou, pelo menos, julgar estar apaixonado. Não era o caso. Podemos falar, inquiri. Podemos diz ela, como se amanha disse-se o mesmo. Mas eu não tinha conversa. Tudo me parecia sórdido, não sentir nada era mau demais para eu dizer fosse o que fosse. Ela não merecia. Ela não merece. Apetecia-me sair dali. Não fui. Ela detestaria que eu o fizesse. Não merece o mau de mim. Onde ficava eu? Onde fiquei eu?
Os exercícios que nós fazemos, para verificarmos se estamos bem ou se vamos ficar melhores. Que defeito eu tenho para e mais uma vez reconhecer que sou assim.
Bem tento ser outro qualquer normal mas nunca sou capaz e, não sei se um dia serei diferente.
Nada procuro. Sei que o que necessito não se procura, nem estoicamente, mesmo que se perca como eu perco tantas vezes.
O desencontro é estar com alguém que se desvanece num momento e não é possível recuperar se não permanecendo estoicamente no mesmo lugar. Assim fiz. Se tentarmos procurar, ficamos perdidos. Continuo a não querer procurar, sei, a nossa cara-metade acontece quando menos precisarmos, quando talvez estivermos a morrer num outro lugar qualquer.
Necessito do meu silêncio. Não gosto do silêncio dos outros. A minha casa não é melhor do que o mar. Só no mar, debaixo de água salgada se encontra um silêncio que tudo absorve, uma paz que não existe em lugar algum. Necessito do meu silêncio e não de um silêncio qualquer. Meu jeito é mesmo assim. Os dias sucedem-se devagar, arrastam-se. Não consigo fazer nada que equilibre uma mente desordenada. Ler um livro, ter uma conversa interessante, escrever, tantas coisas que sonho e de momento não sou capaz de fazer equilíbrio numa delas, qualquer coisa não me apetece.
Ninguém adivinha o futuro, ninguém sabe o que nos aguarda, as doenças, a velhice, a morte, o lar, futuro de muitos que eu nem sei se o terei. De momento, não quero saber, não interessa nada.
Gasta-se de mais. Bebe-se mais. Vive-se numa alegria falsa. Sinto. Por detrás de tudo há um medo, um terror, que por vezes irrompe. O que parece normal é um engano em que cada um pretende enganar-se. Pelo menos os solitários ficam em casa, por necessidade ou escolha deliberada. É mais fácil fazer um contrato com a solidão do que com o insuspeitado.
Todos julgam recuperar o irrecuperável. Há quem de noite, nas discotecas, procure desesperadamente a alma gémea, como se existisse o caso, e afogam-se em bebidas más, outros águas caras. É o mesmo princípio.
Reconheço que sou muitas vezes sórdido, sei lá se imundo a bem ou a mal. Mas sei pensar. Sei sentir mesmo que sinta a distância vazia, sinto. Nem tudo o que está perto é bom para uma pessoa ancorar o que sente. Uma coisa é o afecto, a ternura, outra a sobrevivência que destrói a liberdade e pretende agarrar-nos com amarras. Dormir com uma mulher muito tempo é uma perda de tempo. Não depende de nós. E o que não depende de mim deve ser destruído. Na memória permanece só o que de nós fazemos, não o que nos fizeram. Comigo é assim.
Aceito este meu estranho destino. Sei há muito que tal como nasci sem o querer, assim morrerei quando chegar a minha vez e entre esses dois momentos só existirá a liberdade de ser por querer.
O mais certo é continuar a percorrer o infindável. Em pouco tempo descubro que as pessoas e mais a outra pessoa, nunca me vão entender. Vivo em sossego. Ganhar o sofrimento dos dias é o meu emprenho. Tenho conseguido. Sempre tive muita fé e no meu destino também.
(.. 28Out'06)
