Sou impetuoso (já fui mais). Aprendo cada vez mais a louvar o tempo lento em que as coisas se fazem e desfazem. Tenho perguntas dentro da cabeça que temem sair e, frases feitas que ingloriamente de vez em vez esquecem-se de mim, esqueço-as. Não as registo. Ficam dentro dos miolos, no sangue e outros fluidos capazes de se organizarem para que eu viva. Respire. E outras coisas que todos nós fazemos. Por isso os dias passam. As frases vão e vêem. Como posso encontrar-me e ter a certeza de quem sou? Estou a tornar-me invisível e não posso salvar ninguém. Parecem-me frases inúteis. A maior parte delas só passados tempos, diluem-se. Faço confusões, sei de antemão que ninguém lerá e isso faz rasgar-me as frases e as histórias que sonho ou que vivi ou que queria viver e as coisas más que nunca quis. São tudo motivos para inventar frases que somadas, parecem histórias não existentes.
Quando penso nestas desordens sinto um peso por cima do coração. Deve ser a angústia. As dúvidas. A vida que ainda falta respirar e que nunca sabemos como irá acontecer.
Todos os dias podem acontecer muitas coisas. Todos os dias acontecem coisas, não a mim. Se acontecer que farei exactamente? Penso nestas merdas e não pretendo chegar a conclusão nenhuma. Pode acontecer e pode nunca acontecer nada. Para estar bem não perco tempo com estas merdas. Às vezes tudo me parece mais do que suficiente. Já tive de tudo. O suficiente. Ao acordar, sinto o querer, numa vontade que raia o absurdo, o presente autêntico.
Nada é fácil. Nada é para ser fácil. A facilidade traz o tédio que tudo esbate. Tudo aniquila. Li algures: “O prazer não é senão uma sucessão de pequenas dores”. Não sei se concordo. É que todas as dores do mundo foram sufragadas na cruz por Ele. O paradoxo é que todos temos dores e ninguém faz para melhorar, deixamos os dias correrem.
A vida devia ser vivida em função de cada um de nós e não de outros. Não é possível fazermos alguém feliz quando não somos felizes. Paradoxo é que nos enganamos, e aos outros, e continuamos a dizer que estamos bem.
Só o passado nos alcança, só o que ficou no coração – essa é que é essa. O passado é verdadeiro. O futuro pode ser duas coisas. Falso. Verdadeiro. Que venha outro mundo, se puder.
(..18Set’09)



