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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Ansiedade.

Como explicou Freud os ansiosos crónicos como eu que tem medo do medo ficam sem ansiedade quando deparam com um verdadeiro perigo. Eu sei que é assim. Tenho medo de tudo principalmente das coisas que não faço nada para as ter. Merecer já é outra coisa. Mereço algumas, mas nada de atropelos, tão pouco que me desejem o mal. Isso não desejo a ninguém. Prometo coisas simples. Nada de milhões e de felicidades a rodos. Prometo uma refeição, nada demais. Um bom bacalhau cozido, isso sim. Tenho fogão e euros para adquirir o alimento. Os vícios, esses, vou perdendo aqui e ali. Devagar para não doer muito. Os beijos não prometo. Toco com os meus lábios nos momentos de desejo. Nunca de consolação. As promessas de amor cumprem-se muito dificilmente - penso.
O tempo agora é de chuva e prefiro que ao cair, a lembrança seja exequível, só assim existe razão para a chuva cair. Que caia por uma boa razão e as lembranças são uma delas. Às vezes as coisas que deviam ser agradáveis são um tormento. E ninguém quer que seja assim. Ninguém faz para que os tormentos sejam enormes. Só que não conseguimos fazer melhor as coisas que alguém quer muito. As coisas todas têm o seu próprio ritmo e nós também. Isso não quer dizer que não queiramos faze-las, só que muito das coisas que outros querem de nós, ainda não estão ajustadas ao encontro das nossas coisas. Cada um tem nas necessidades a sua velocidade e expectativas. É como dizer; ter tudo não significa necessariamente ter tudo de uma só vez.
O tédio absorve-me. A raiva atiça-me. Que fazer? Deformar-me tem as suas dificuldades. Não é fácil. E não é para todos. Cada pessoa tem a sua maneira de ser, viver, respirar, amar. É um direito. Sou um “fala-barato” de boca aberta e por isso pago no dia a dia. Não minto, tanto quanto me é possível dominar as palavras que cresceram comigo e valem o que valem, hoje.
Abro a boca toda às coisas que me estão a fervilhar no coração, essa é que é essa. Não vale a pena mentir porque o mundo é inclemente. Sei que é difícil de me entenderem. De momento nem me encontro, desisti. Fico melhor comigo. Nem espero que gostem. Mesmo os que gostam, não me vão olhar no final dos meus dias. É que eu admiro tanto o silêncio profundo das coisas. A distância é só um pequeno silêncio, a distância causa o silêncio - digo eu.
O que mais me aflige é não saber para onde foi todo o tempo que já me passou e que de momento o encontro resumido a um breve instante. Tudo isto me está a escapar entre soluços. A caixa onde guardava as coisas do tempo, devem estar perdidas para no último dia as encontrar. Talvez seja a tal luz que todos falam que vemos – dizem, no último suspiro, antes de irmos.
Quando já não há sentido já nada há que se entenda e de nada vale a pena tentar compreender o que é ou foi incompreensível. Os valores invertidos a partir de certa idade, reconhecem-se logo, por isso nos afastamos ou partimos. Essas coisas devem ser para os outros, nós só queremos descanso e ter alguém que nos abrace muito sem pedir o mundo que sabemos que não nos pertence.
São muitas frentes e, soluções, uma mão cheia de nada..
A coragem não existe.. não existe. É só um vocábulo..
Talvez goste de viver o que vivo. Talvez goste do meu destino que tende a desmoronar-se. Devo ser muito ansioso, querer muito e ninguém a desejar.

(..24Set’08) (2)

sábado, 20 de setembro de 2008

Lucidez.

Recuperar o irrecuperável.
Todos julgam recuperar o irrecuperável. Há quem de noite, em discotecas e ou similares – acreditam que vão divertir, procure desesperadamente a alma gémea, como se existisse, e afogam-se em líquidos de má qualidade. Gasta-se de mais. Bebe-se de mais. Vive-se numa alegria falsa e a vergonha é sempre uma saída, para quem não tem vergonha de si e de nada. O que parece normal é um engano em que cada um pretende enganar-se, e aos outros também. Uma família não se escolhe. Criam-se laços, laços que na maioria das vezes se esvai-se num só instante, sem querermos. Por detrás de tudo há medo. Um terror. Seja o que for, ninguém mostra o medo que tem das coisas que tem medo. A vergonha não é tudo, nem é coragem, é só mais umas coisas que não queremos acreditar que fazem parte de nós. Coragem, essa, também é mentira. Os solitários ficam em casa, por necessidade ou que seja, escolha própria. É mais fácil viver em solidão do que o insuspeitado – digo eu.
O sono ultimamente volta-me embrulhado em modelos esquisitos, quer fique com os olhos muito abertos ou que finja que os feche. Não prevejo o futuro que me aguarda. Doenças, até nisto e por enquanto sou muito pobre. Velhice. Morte, naquelas casas de repouso para os fora de prazo. Só consigo prever o que quero muito para mim neste momento, o que por vezes me trás amargos de fé, imensos. Só no mar, debaixo da água salinada – sempre pensei assim, se encontra um silêncio que tudo absorve. Uma paz que não existe mais em parte alguma. Os dias sucedem-se devagar, arrastam-se. Não consigo fazer népias que equilibre a mente que anda desordenada. Ultimamente ando encalhado num mar de coisas que não se resolvem com mãos minhas, e pior é que nem com mãos diferentes.
Olho com verdade para as faces de gente jovem que me passam, de lado, de frente, de um lado qualquer, e tenho dó deles. Sinto-lhes os sonhos e é tudo muito vago e muito distorcido. Sorrisos largos para estarem bem. O presente é mais que suficiente. Cada um é um mundo que não pretende ser desvendado, esclarecido, explicado. É outra lucidez.
Agora vejo as coisas de forma diferente. Era jovem e cresci. Deve ser por isso que me levo a distorcer as coisas que não acredito mais. Quando todos se juntam em redor do álcool e do som da moda, ninguém quer saber dos olhos de dor dos outros, só, isso sim, como é que hoje vou ser melhor predador para me sentir melhor? É outra lucidez.
Mas todos continuam a escolher os mesmos rituais, os mesmos lugares, as mesmas piscadelas de olhos, e ninguém tem a coragem de entender que esse, é só um lugar e um momento que não faz parte de nada. Vive-se uma liberdade proibida. È como as dança. O movimento dos corpos não segue qualquer regra. O escândalo vive-se. Os excessos tentam-se controlar. Gosta-se sempre de alguém, mas ninguém quer saber de ninguém. Não vale procurar, perdemo-nos. E depois de nos perdermos no álcool de alguém e as luzes do dia baterem-nos nos olhos, sim, é outro dia e aqueles lugares não nos deram nenhum valor acrescentado que nos faça ter um futuro melhor. No final, passamos a vida a mentirmo-nos e a mentir aos outros. É a lucidez - vulgar.
Tenho cá para mim que na nossa pior idade que é aquela que ninguém nos quer, vamo-nos encontrar numa casa de repouso onde hoje ninguém quer estar. Ai sim! Olhamo-nos uns aos outros com a fé que nunca quisemos saber outrora. É tarde, digo eu.
Acredito que no final das nossas vidas, não são os que mais mentiram ou viveram em divertimento, morrem mais felizes.
Deformo-me em tempo útil.

(.. 20Set’08)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Apartamento, 5A.

Acabei de ler, por não ter razões para fazer outra coisa, o livro do Sr. Gonçalo Amaral, Coordenador Operacional das investigações do caso da rapariga inglesa de quatro anos, desaparecida no Algarve, no dia 3 de Maio de 2007. Foi afastado da investigação num acto inédito na história da Policia Judiciária, em Outubro de 2007 (vá lá saber-se porquê? Tratado de Lisboa?..).
É de momento em minha opinião e convicção que, se faz justiça de certa maneira com a leitura deste livro. Por esta razão, merecia registar o livro todo, mas fico-me por duas páginas, no meu diário. Página 205 e a última página – nº 221.

Cito:
Pág. 205
“(…) eu sei que o vosso gabinete tem tomado um império sobre o nosso, mas sei também que já é tempo de acabar. Se os meus predecessores tiveram a fraqueza de vos conceder tudo quanto queríeis, eu nunca vos concederei senão o que devo. É essa a minha última resolução; regulae-vos por ella (…)”

Carta do Marquês de Pombal a Lord Chatam,
do governo Britânico – ano de 1759

Pág. 221 (última)
"(…) Para mim e para os investigadores que comigo trabalharam no caso até Outubro de 2007, os resultados a que chegámos foram os seguintes:

1.
A menor “nome da menina” morreu no apartamento 5A do Ocean Club, da Vila da Luz, na noite de 3 de Maio de 2007;

2.
Ocorreu uma simulação de rapto;

3.
KH (mãe) e GM (pai) são suspeitos de envolvimento na ocultação do cadáver da sua filha;

4.
A morte poderá ter sido em resultado de um trágico acidente;

5.
Existem indícios de negligência na guarda e segurança dos filhos.

(...) Temos a consciência de ter dado o nosso melhor para a resolução do caso. As nossas convicções assentam na experiência profissional, em factos e indícios recolhidos e da sua interpretação à luz do direito. O nosso trabalho desenvolveu-se com o objectivo da realização da justiça através da busca da verdade que torna vulgar a verdade da mentira."

Olhão, Julho de 2008

Não sou vendedor de livro algum, nem tão pouco quero manipular o assunto para lerem o tal livro. Li porque me foi emprestado - fiz por isso, e é uma delícia a sua leitura. Depois de leitura atenta e, aqui e ali ter parado qb, para pensar e estrebuchar sobre as coisas que me eram contadas (relatos vivos), resta-me reforçar o que já sentia sobre tudo, principalmente sobre o responsável - GA que, merece o meu aplauso, estima, respeito e admiração.

Pactuo em absoluto com tudo o que acredita, fez e disse.

(.. 03Set’08) (2)


Nota: O que entender das notas feitas pelo punho de KH no livro da Bíblia em, II Samuel 12? E.. a história dos 2 cães que (detectaram..).. trazidos de Inglaterra a pedido da polícia inglesa no terreno e aceite pela polícia portuguesa? E.. ? E.. ? E.. ? E.. ?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Asfixia Mórbida

Era uma vez um homem que vivia num armário. Ninguém se lembrava já porque vivia o homem no armário ou quando nele se fechara.
Uma manhã ao levantar-se, a mulher não o viu deitado e estranhando procurou-o, era cedo ainda para ele se levantar.
Encontrou-o sentado no chão do armário. Ar calmo e sereno. Em resposta à pergunta, “que fazes aí?”, ele, voz firme e decidida respondeu; “não saio mais daqui”.
Não deu razões nem explicações. Ficou sentado sem levantar o olhar. A mulher falou-lhe dos filhos, de planos, trabalhos e necessidades. Em lágrimas e com pragas maldisse a vida e a decisão que ele tinha tomado. Ameaçou chamar um médico porque, ninguém no seu juízo perfeito se fecha num armário. Ele, a tudo, nada disse, apenas encolhia os ombros.
Durante dias a fio a mulher tentou convencê-lo a sair do armário, ou pelo menos, pedia-lhe, “deixa a porta aberta”, ele nada respondia. Ela falava-lhe do mundo, dos dias de sol, das pessoas que perguntavam, “onde está o seu marido?”. Ele encolhia os ombros e fechava a porta.
Os meses passaram dentro e fora do armário. Não com a mesma medida porque, o tempo não é tempo para quem se fecha. As estações não mudam quando o tempo está parado. E um ano é um dia. E um dia uma hora.
A passagem do tempo notou-a ele nas palavras da mulher, cada vez mais raras. Nos passos dela, cada dia mais cansados. No silêncio, cada dia maior.
Um dia os passos deixaram de se ouvir no outro lado do armário, mas tinha já passado tanto tempo desde que se fechara que, esquecera da chave, da porta e gestos de abrir.
“Talvez alguém venha” - pensou ele. Mas não se lembrava já de ninguém e ninguém no tempo o lembrava.
Só então entendeu, “a porta que fechei e não me lembro, devia tê-la deixado entreaberta”.

(.. 01Set’08)
(Histórias mórbidas e de sangue, do meu baú: ano'2003)

Em deformação. (*)

(x)
Não passa um só dia, que não pense um só momento em ti
Por ser um homem normal e tento - deve, o defeito é meu
talvez me tenhas cegado,
porque não soube ver nenhuma das pistas do teu passado.
Pergunto bastas vezes, se naquele dia eu não estivesse lá,
o que teria acontecido quando te vi pela primeira vez?
Talvez alguém complicado como eu, não possa viver esse amor,
onde nunca tive firmeza e só estivesse destinado
a dar-te algumas coisas que tu, sempre sonhaste!
Talvez! Quem sabe..
E o que aconteceria, se nunca tivesse sido possível
conservar o que nós tínhamos?
quiçá!.. aconteceu
Pelo menos, é o que me digo
lembro, lembrando.


(y)
Sobra carácter no meu silêncio.
Apetece-me rir, quando durmo.
Se não te olhasse,
de quem seriam os meus sonhos?
Rebolo na cama, procurando o que não tenho!
O Sol trás o conforto da noite outrora prometido
Sei que me sentes mas, não como eu escuto
E decididamente não quero que seja assim.
Revejo o meu jardim, os meus sonhos
os meus ideais, expectativas
Sei que não te encontro
tenho-te em mim.
Farei por te merecer
Tu mereces


(.. 01Set’08
)

(*) Lembraduras.
(x) a.c.
(y) d.c.