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quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Aprendendo comigo.

Aprendo comigo algumas coisas. A ideia é simples. Roubar ao mundo um pedaço de vida. Depois se o conseguir, fixava para sempre com palavras. Agarrava com os dedos as tintas, e delas, traços escritos dos nossos prazeres. A ideia prende-me os sentires. Quero sempre mais de mim, quero suster o tempo. Fechar-me num lugar qualquer sete horas seguidas, porque não mais? É uma fixação pretendida que se esfumou da realidade. As coisas foram feitas para se utilizar no dia a dia e desaparecer no tempo. A repetição dura até um dia alguém dizer basta. Gosto sempre de escrever o que me vai na alma. Assim sou e assim por ora serei. Estes meus nadas, tropeçam-me e perco-me.
Esta ideia era tão simples. Foi minha ou tua? Quisemos que fosse nossa e eu gostei sempre de saber que era dos dois.
A exaustão também faz parte da vida. Os corpos a caírem, a serem segurados pelo chão, as palavras a desfazerem-se nas bocas, a voz a desfalecer até nascer o silêncio. Sim, foi sempre isso que quisemos atingir. As conversas, essas, tinham outros lugares marcados.
Lembro-me, de pensar que um dia mais cedo ou mais tarde, as palavras deixariam de existir, trocaríamos por gestos e mesmo esses, também seriam perdidos, para dar lugar aos nossos melhores silêncios. O silêncio busca o imaginável, a performance, o amor pleno. Eu continuo a imaginar coisas complicadas, tudo ou nada.
Tudo era natural. Nasceu tudo em simultâneo com os sonhos. Sonhamos um dia e no mesmo instante realizávamos os nossos sentires.
Tudo era simples, simples, tão simples que não resultou. Talvez fosse demasiado simples, e o engano enorme.
Eu tinha dito que as palavras roubam tudo o que apanham, são ciumentas, irrompem por debaixo onde o silêncio as sustém. Que mania da perfeição que o amor nos rouba.
Faltará a impressibilidade aos nossos silêncios? As coisas previsíveis aborrecem-me mas, tornam-nos mais seguros. Ninguém quer a rotina mas é ela que nos segura dos nossos defeitos. Se não acontecer nada, nada se percebe. Ninguém percebe até que algo aconteça. E tudo o que acontece não se deixa ver pelo simples movimento das coisas. É sempre preciso um nascer de uma história própria para cada acontecer.
Os corpos enganam muito, as almas são sempre um enigma.
Sonhar acordados, estamos sempre. Necessitamos de juntar o que é com o que não é. Ficcionamos sempre e outra vez mais. Somos assim, nada criamos, rodamos o que já outros viveram do mesmo modo. Só assim a vida é vivida. As histórias são feitas assim e todos temos uma história para contar, nunca entendemos é porque é sempre igual a outras que andam por aí. Eu que queria roubar um bocado de vida, hoje quase parece impossível. Será impossível?
O medo dói mas faz-nos companhia. O sofrimento deixa-nos crescer. E um maior vence o anterior. Quando nos dói é preciso urgentemente encontrar outra alma que nos faça ser mais desequilibrados, é o perigo da contradição. Acontece-me que um maior desgosto de amor cura-me de um amor profundo e fiel anterior, mas nunca aceito. Desconheço-me, cada vez mais.
Esta existência não é um jogo e eu esfumo-me sem jeito, sem qualquer destino, sem caminho, nunca me apetece chegar a qualquer lado. A falta é o que nos faz caminhar, continuar. Aprendemos com as faltas, todas as faltas sejam elas quais forem, desde que seja uma falta. A minha ignorância é a condição de aprender, não sei e quero saber, essa a minha contradição a que me completa, sou assim que hei-de fazer?
Faz-me falta o amor que não sei.
O principio é mordaz e quanto mais, pior é os finais, nunca acontecerá de bom jeito. Quanto mais amo menos sei da palavra amor, o que sinto falta. Essa a minha falta. Devia desistir Sei lá o que é o amor. Sei, sem ele nada há. Tudo preenche, tudo ocupa, os lugares mais secretos, onde já nada esperávamos encontrar. Quero continuar a aprender a sentir a falta que me faz.
Confundimos vezes de mais sexo com amor porque ambos surgem de faltas. São diferentes como o corpo da alma. Só sou alguém porque existem outros, assim me sinto, outro, nunca eu, porque tenho falta.

(.. 05Out'06)

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