A multidão passava junto de nós. Não nos separámos. Chovia infernalmente as águas que faltaram noutros lugares, nesse dia. Não queríamos saber das gentes, que nem nos sabiam ler. Naquele momento o mundo estava parado. O stop do relógio insistia no seu passo que não era o nosso. Abraçávamo-nos, um longo abraço, parecendo que era o último dia e não o primeiro que nos tocávamos. As bocas, colaram-se. Impossível não me lembrar desse momento.
Mais de uma hora colei-me, não largando, senti que era um início de qualquer coisa. Sim, eu nunca tinha estado assim, naquele jeito tão diferente (se alguma vez estive, não me lembro neste tempo) a outros olhares que ali passavam, por nós.
O espaço era e é público. O pilar do passeio segurava-nos. Tremia, como se fosse uma primeira vez. Lembro-me do meu primeiro beijo, ainda hoje. Rápido, fugaz, roubado, atrevido e doce.
Este, além disso, um beijo que sempre sonhara e que encontrava.
Uma hora. Lembro-me que depois desse momento, na real, foram mais de duas horas seguidas sem folgo e um arfar constante, que me permite ainda hoje, depreender com dignidade, um futuro fantástico que um dia terei.
Misturei os meus lábios com a saliva que me tomava. Deixei-a entrar. Gostei e abracei com o meu, o nosso melhor abraço. O nosso tudo estreava-se. Sei, ela desde esse dia, aprendeu o significado do meu nosso tudo… O abraço.
Outras gentes acham que o beijo é o melhor, que seja. Eu continuo a dizer que o abraço mata-me, acrescenta-me sempre vida (não fosse eu um homem, nascido e educado em conforto de abraços).
Um abraço é um sinal de amor, segurança e união. É sincero e revela intensidade entre dois amantes e companheiros. Num casal, revela profunda intimidade. Um abraço ao final do dia, quando chegamos do trabalho, revela saudade e alegria, um abraço ao deitar significa serenidade e segurança. Um abraço após o sexo é reconfortante, prolonga as coisas que se amam. É um sinal de que os corpos estão saciados e podem agora prolongar esse prazer na companhia do outro. Reconhecendo também, aqueles momentos de invulgar proximidade, confortando significativamente a nossa parceira.
O abraço e o sexo posicionam-se com certeza, em níveis diferentes. Não os comparo, não os diferenço. O abraço implica sempre um envolvimento afectivo e um reconhecimento da importância da pessoa que está ao nosso lado, enquanto o sexo, pode ser pulsante, como estar envolto no romantismo e/ou no amor. Gosto mais de dizer que um abraço é; uma partilha de prazeres muito gratificante.
Outros textos que por aqui já escrevi, mostram, como um abraço é fantástico e a importância do que sinto. O abraço é vida.
Lembro-me, que estava no paraíso que sempre sonhava, naquelas noites que só eu ouvia os silêncios que me pertenciam.
As gentes, multidões, continuavam a passar e nunca os olhámos. Sei que eles também não.
Nenhum jardim é melhor do que uma cama. Deve ser por isso que existem tão poucos.
Transbordei de sentires fantásticos, abracei como nunca abracei, amei ela e o momento e… vim-me. Gostei e continuamos. Segredei-lhe palavras sentidas no ouvido. Mostrei-lhe naquele momento que eu só a ela pertencia e sei, ela gostou do que sentiu. É gratificante, sentirmo-nos correspondidos.
Abracei-a e ela abraçou-me, mostrando-me que nos pertencia-mos.
A chuva não parava, era intolerável. O vento vociferava. Não lhe ligamos pevide nenhuma. E ali de pé com as multidões a caminharem, nós nos amámos. O pilar, testemonhou, e sem juras, sem pressas, de novo liquidifiquei o que sentia dentro de mim. Duas vezes ejaculei, sem tempos de correr, morria… Juro! Ali mesmo, não fosse ela ficar sem mim.
Foi fantástico o que ofereci mas, mais gratificante o que lhe senti. Olhei-a e vi aqueles olhos abertos com aquela linda cor de mar sujo… O dia estava sujo mas, nós estávamos abraçados sem fim. Quero-te adormecer em mim, Joana.
Pergunto-me, se um dia os meus filhos, serão assim? Se alguma vez sentirão, que o sexo, nada tem a ver com amor, e o amor é sexo.
Não lhes ensino. Não tenho essas vontades de lhes dizer que é necessário chorar muito e que aquele hoje lugar deles, não é ainda o último. Que seja, melhores caminhos tomaram.
A vida é estranha. Na vida profissional tudo é acertado, tudo é certo pelos anos que faço no mesmo lugar. No caminho que é mais cobiçado por mim, deveria ser melhor mas, levo com os pés vezes demais.
Em quase todas por querer um abraço mais. Se não é pelo abraço é porque nunca chego tarde a casa, ou porque não bebo, ou porque não sou um homem normal, com erros normais. O meu pior defeito, lembro-me da última que me dizia que amava, acusava-me que só queria abraços, abraços demais. Quando não era abraços, era porque gostava de lhe acompanhar nas compras, na lida doméstica, ou porque ficava triste se ela não me deixava ir buscar a nossa filha há escola. Eu sempre gostei de estar em casa, e se não, que fossemos todos ver o Sol, abraçados.
O sexo era bom para ela, menos para mim. Depois, uma vez por dia dasss, sentia a morte avançar. Foi assim que aprendi, só podia ejacular-me depois da hora dela, e o cansaço morrer em mim.
Porra, eu gostava dela, mas deu-me com os pés. Hoje sei, quer-me mas, eu nunca voltei atrás, mesmo que seja o caminho certo.
Os meus filhos vivem, uns assim assim, outros, bem melhores do que gentes grandes, e todos sabem que bom pai eu sempre fui, e estou. Fui sempre um presente. Melhor, abracei-os continuadamente, até que foram no horizonte procurar os seus caminhos.
Hoje, amo o que sinto. Gosto do que vejo. Gosto do que toco. Sinto todos os dias como se fosse o primeiro dia. Aquele dia em que chovia montões de água que nunca nos molharam e que as gentes não nos olhavam, nós ganhávamos, os nossos tudo. Foi um grande e bom início. O segundo aniversário raia e é fantástico sentir que outro advém.
(.. 15Abr'06)