Era uma vez um homem que vivia num armário. Ninguém se lembrava já porque vivia o homem no armário ou quando nele se fechara.
Uma manhã ao levantar-se, a mulher não o viu deitado e estranhando procurou-o, era cedo ainda para ele se levantar.
Encontrou-o sentado no chão do armário. Ar calmo e sereno. Em resposta à pergunta, “que fazes aí?”, ele, voz firme e decidida respondeu; “não saio mais daqui”.
Não deu razões nem explicações. Ficou sentado sem levantar o olhar. A mulher falou-lhe dos filhos, de planos, trabalhos e necessidades. Em lágrimas e com pragas maldisse a vida e a decisão que ele tinha tomado. Ameaçou chamar um médico porque, ninguém no seu juízo perfeito se fecha num armário. Ele, a tudo, nada disse, apenas encolhia os ombros.
Durante dias a fio a mulher tentou convencê-lo a sair do armário, ou pelo menos, pedia-lhe, “deixa a porta aberta”, ele nada respondia. Ela falava-lhe do mundo, dos dias de sol, das pessoas que perguntavam, “onde está o seu marido?”. Ele encolhia os ombros e fechava a porta.
Os meses passaram dentro e fora do armário. Não com a mesma medida porque, o tempo não é tempo para quem se fecha. As estações não mudam quando o tempo está parado. E um ano é um dia. E um dia uma hora.
A passagem do tempo notou-a ele nas palavras da mulher, cada vez mais raras. Nos passos dela, cada dia mais cansados. No silêncio, cada dia maior.
Um dia os passos deixaram de se ouvir no outro lado do armário, mas tinha já passado tanto tempo desde que se fechara que, esquecera da chave, da porta e gestos de abrir.
“Talvez alguém venha” - pensou ele. Mas não se lembrava já de ninguém e ninguém no tempo o lembrava.
Só então entendeu, “a porta que fechei e não me lembro, devia tê-la deixado entreaberta”.
(.. 01Set’08)
(.. 01Set’08)
(Histórias mórbidas e de sangue, do meu baú: ano'2003)
