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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Cogitando..

.. o meu desassossego,

Ao olhar fotos antigas deu-me um baque de ansiedade. Os meus baques são sempre muito grandes. Desumanos. E muitas vezes doem muito, muito mais do que valorizei ou valorizo. Às vezes acontece. Às vezes existem coisas que nos dão um baque. A intensidade das ansiedades - dos baques, medem o tamanho do valor que demos ou damos às coisas. Ver coisas antigas tem destas merdas, ansiedades desmedidas, desassossegos e, todas estas merdas foram importantes que passámos uma vida a fingir que nada se passou, nada nos tocou.
As coisas que vi, fotos, objectos etc e tal, são do tempo da minha infância, da minha adolescência - quando a família e as amizades valiam e, o respeito pelos outros era verdadeiro. Outras coisas de quando já era um jovem adulto, quase homem e homem. Tudo o que vi, recordei as coisas que pensava que já não me pertenciam. Coisas que - pensava eu, já tinham morrido de vez e todas elas me fizeram reflectir e todas elas me fizeram deambular pelo passado, entristecem-me o presente e depois, sofro um baque.
Nesse tempo, nesses tempos, era feliz. Tinha esperança e sabia que o dia seguinte seria melhor que o dia anterior. A família existia e era sempre presente. Os amigos esses, eram amigos e também presentes. Nunca ficávamos nem nos sentíamos sozinhos.
Hoje, tão certo como; sabermos que a família não existe, as amizades serem um disfarce indisfarçável na maioria das pessoas, sei que o dia de amanhã será muito pior do que o dia de hoje, mas se as amizades perdurassem, era tudo muito mais fácil e melhor para todos.
Hoje ninguém deve viver a contar com amizades passadas, é cada um por si e a morte antecipada do carinho, do respeito, dos sorrisos, abraços e das brincadeiras passadas, são palavras já falecidas - as coisas nobres de outrora desaparecem.
Pode não parecer, mas as coisas já nos entram pelo sangue sem sentirmos, e por isso a regressão está institucionalizada. O poder político não me prende por eu pensar - e dizer - isto ou aquilo, mas lixa-me a vida de outra maneira, em tudo o resto. Transformou-me (nos) em objecto ao serviço de interesses que não são os meus (os nossos) nem os do país. Roubou-me a família. Roubou-me os amigos.
Outrora mesmo com dificuldades, havia esperança e futuro. Agora, só há desesperança. E o futuro, já percebi qual vai ser: todos nós cada vez mais triturados pela chamada economia de mercado e, entregues aos donos do dinheiro que apesar de decidirem as nossas vidas, não sabemos quem são – que estranho, vamos morrendo como eles querem, sem conseguirmos gritar, porque ensinaram-nos a acovardar, ficar hirtos para a entrega dos nossos despojos mesmo no dia final.
Morremos em silêncio. Já ninguém quer saber dos que estão a morrer, muito menos dos que ainda respiram sem caírem nas maleitas dos senhores dos euros. Hoje morre-se, Tapa-se, e já está.
Ouvimos promessas sempre adiadas, mentiras atrás de mentiras, todos guerreiam palavras bonitas dos livros dizendo-nos sempre a mesma coisa, com a riqueza cada vez mais acumulada no prato do capital, com o povo tão embrutecido e tão manietado já não precisam de PIDE, nem de Censura, para manter a besta sossegada.
Se pelo menos as famílias dessem um abraço, os amigos outro abraço, ninguém nos derrubava. Assim, cada um por si, a fragilidade impera.
Cabe a cada um de nós, não deixar morrer os melhores valores da vida!
À família! A verdadeira!
À amizade! A verdadeira!
Aos homens! Os verdadeiros!

(.. 17Set'10)