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quinta-feira, 17 de novembro de 2005

O último dia do início da minha vida.

“Lembraduras” arrumadas da minha vida.

Lembrei-me do dia em que resolvi sair da “boa vida” e da “boa companhia” que vivia bons tempos atrás.Já passaram mais que suficientes tempos, que ainda há pouco pensava que era menos do que me atrevi a pensar. O tempo passa e quando a sorte nos vêem nem damos conta, se algo corre mal então esse mesmo tempo atreve-se a mostrar a sua lentidão. Como eu digo e hoje mais do que nunca: o tempo não passa, tropeça.

Quero lembrar-me: Ano 1999

“Cheguei a casa, naquele dia como tantos outros dias que podia ser um qualquer.Dificilmente chegava tarde a casa mas nos últimos tempos o meu regresso era um tremendo suplício.Cheguei. Arrumei a casa, como sempre o fiz. Limpei a casa, como sempre o fiz. Arrumei as duas casas de banho, como sempre o fiz. Arrumei os quartos, como sempre o fiz. Preparei os preparados para o jantar, como sempre o fiz. Tomei banho, como sempre o fiz. Vesti o pijama, como sempre o fiz. Sentei-me na sala a olhar a televisão, como sempre o fiz. E esperei que as mulheres chegassem, como sempre o fizeram. E o tempo passou depressa e elas chegaram, a mãe e a sua filha.A porta fecha-se e os comprimentos naquele dia adivinhavam coisas diferentes. Não ouvi nem os senti nesse dia e nesse momento qualquer comprimento.Lembro-me de ouvir de um lugar longínquo uma voz: Mas eu não te tinha dito que hoje o jantar, era… blá blá blá…Não respondi. Tinha feito melhor porque tivera tempo.Ainda ouvi: Que “chatice” o que eu digo nunca se faz. Mas eu não mando nada? Blá blá bláEu nada respondi.O silêncio passou na hora do jantar e eu jantei. Desta vez foi bom, jantei acompanhado. Pouco se disse. A filhota disse que o comer estava bom, eu agradeci. Sorrimos um sorriso que só eu e ela conhecíamos, fomos de uma certa forma cúmplices quase uma vida. Um sorriso de satisfação dela para comigo mas, irreconhecível para a mãe. Jogos de pais e filhos que não são filhos e não são pais, simplesmente simples, o tempo nos fez amigos para sempre.Depois do repasto não fui ao café como noutro dia qualquer. Elas saíram, a mãe apetecia-lhe café, mesmo como outros dias antes de se deitar queria falar com as suas amigas do café, diria arejar. A filha mesmo não querendo, foi.

Ouvi o fechar da porta quando olhava a televisão onde não via nenhuma imagem mas ouvi o silêncio, esse estava comigo.Lembro-me de olhar o relógio do vídeo, vi os números, vinte e uma horas e quinze minutos. Continuei a olhar o que nada me lembro de ter visto, também nada me lembro do que senti.

Despertei de pensar, sei lá se pensava, não me lembro e vi os números que leio, vinte e três horas e cinco minutos. Levanto-me para ir para a cama, senti-me cansado, queria dormir. Fui para o quarto. Abro o guarda-fato onde tinha arrumado a roupa que vestira nesse dia, e olhei-a. E vesti-me, e calcei-me, e peguei em algumas coisas que coloco num saco e outras embrulho numa manta. Às 23 e 20 saí de casa. Elas normalmente chegam pelas vinte e três e sempre muito pouco.

Entro no carro, arrumo as coisas e medito…Hoje, fui para casa e fiz tudo o que normalmente faço. Chego sempre muito cedo. Tenho tempo para fazer sempre o que faço, a diferença é que hoje saí de casa às 23:20 horas, coisa que nunca faço e dou por fim a uma relação de doze anos.

De repente tudo é muito claro… dou conta que aquele espaço, aquele mundo, aquela família não me pertencia e eu estava fora do lugar certo.É uma história muito comprida cheia de pormenores pessoais, que tanto evito falar, mesmo para mim mesmo. Eu erro, nós erramos e eu errei tantas vezes.Digamos, penso assim desse dia. Alguém estava comigo em casa. Senti que sabia exactamente o que queria de mim. O silêncio daquele dia era diferente naquela casa, mas eu ouvi-o. Falou-me e dei por mim a desejar ter a sorte dele. Achei que sabia fazer tudo certo. Nunca feriria, quem gostássemos muito.

As pessoas estão sempre a dizer-nos que é bom mudarmos mas, na realidade querem-nos dizer é que aconteceu uma coisa que não queríamos que tivesse acontecido. Tinha uma boa vida. Era muito bom a companhia delas, principalmente a mais adulta. Gostava, por isso sempre fiquei, e os anos passaram.

Acabei. Levei com os pés! Já vos tinha dito?

Foi uma vida com uma mulher fantástica e uma boa filha. A filha fazia-me umas boas patifarias. Tentou sempre, verificar até onde poderia ir. Sempre tentou criar guerras, conflitos entre mim e o verdadeiro pai. Aqui as nossas cumplicidades nunca existiam. Chantagens emocionais eram constantes, entre mim a mãe e a outra verdadeira família. Fazia-me tantas, todos os anos, todos os meses, todos os dias. Mas eu gostava, aprendi a viver assim, gostava dela e da outra.Ainda me lembro: Se não me comprares eu peço ao meu pai. Se não me comprares, peço há minha avó… Era engraçado, mas eu dei-lhe sempre, quero dizer, demos-lhe sempre.Sei que daqui a mais uns tempos vai ser deprimente, os dias nunca mais vão ser iguais e também sempre soube que nunca voltaria atrás. Não tarda, não passará de uma recordação.

Haverá gentes por certo que dirão que sou tolo, mas que pelo meu temperamento adivinhavam o que eu à muito deveria ter executado. Acho que é mais um tributo à decência de um qualquer homem.Tudo se vive, o mal é acharmos que só a natureza muda e não nós, pior é no dia a dia que nos habituamos a sentir que tudo o que temos ou vivemos é um dado adquirido.Na verdade lembro-me… Hoje de manhã ao sair, estava tristíssimo, senti.É como se tivesse morrido mais um pedaço de mim e ninguém pode mudar isso.

A partir desse momento que saí de casa e só faltava uma coisa… Onde ir dormir nessa noite? E a seguinte? E onde iria viver a próxima vida? Nada tinha planeado, nada tinha sido premeditado.
Procurei um amigo que hoje está lá em cima onde um dia vou encontrá-lo.Os dias nunca foram melhores e ainda não o são.

Dito este pensamento, sei e sinto que está arrumado. Gostei de pensar neste dia que já faz muitos anos.

(.. 16Nov'05)

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