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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Emprego (4)

Olhos que me tiraram a vida.

"Aquilo a que assisto é real e não é possível."(PortoKioto)

No emprego as coisas correm muito mal. Não sei o que sinto. Não sei o que dizer. Também não sei o que devia ou deva fazer.
É uma coisa muito minha. É mesmo no meu interior que sinto as coisas, as minhas. E eu sinto as coisas muito más. É um caminho de dor e é muito ténue os dias seguintes.
Temo a loucura de outros para mim. Temo que um dia as coisas já não sejam para eu decidir. E quando deixar de decidir as minhas coisas o abismo chegou. É o que sinto com as coisas do meu emprego que, um dia foi meu, mas agora, já não me pertence.
Tudo o que sentia deixou de fazer sentido. Isso foi há muito tempo e foi há bocadinho e voltou a ser agora e pode ser outra vez, todas as vezes. O mundo quebra-se. O que sinto é mesmo de uma pessoa que era o melhor profissional e agora deixou de ser. Mais vale pensar noutras coisas. Digo isto a sério, muito a sério, se bem que sinta como há muito tempo não sentia, uma estranha vontade de rir dos que ficaram, sem mim. Tenho muito medo que eles venham para junto de mim. Como já tive de outros que vieram primeiro. Mas reconheço, a maioria não irá aguentar o que eu aguento. Juro. Tenho medo por eles. Eu não sou eles e eles julgam que são como eu.
Podia ter pensado noutra coisa. Todos os dias penso nestas coisas. Não tenho como fugir! Penso nos amigos que ficaram e penso só agora em mim. Penso nos que dia-a-dia se mostram mais amigos do que alguma vez supus. Nem a sonhar. Nem no passado. Mudaram e eu também mudei. Tem gente que nos trama para melhor, nas suas acções presentes. Temo não saber reconhecer todos que num passado me eram fiéis e hoje foram-se embora, por razões que, só cada um deles sabe. Outros, reconheço, são tão positivos que, cada vez mais tenho vontade de dizer que pequei tantas vezes, num passado longínquo.
Agora já sei porque não consigo pensar noutras coisas. Agora tenho a certeza. Não me serve de nada, mas tenho a certeza, até voltar ao princípio. Volta-se sempre ao princípio. Só que não é o mesmo.
Tento todos os dias fazer algumas coisas. Também penso muito. Isso! Mas depois desisto. Abandono-me vezes sem conta. Às vezes sem remorsos. Tudo o que fazia parte da minha ambição profissional, foi-me cortado. ROUBADO - digo. Outras, faziam parte da distracção. Uma maneira de passar o tempo. Continuo a resistir. A ansiedade toma-me. Doi-me o estomago. E últimamente são tantas dores, que se embrulham em mim. Mas eu não grito. Não mostro o que me dói. Isto desde sempre.
A minha única ambição era o meu trabalho. E não consigo mais pensar numa outra coisa qualquer.. Por isso tenho medo de mim.
Eu sei. Tudo valeria a pena. Tudo. Até tudo o que não valeu a pena. Que foi só um longo e inútil desperdício. Foi sempre assim desde o princípio, como já disse mas repito, qualquer que tenha sido o princípio. E ouve muitos. Se bem que já há muito tempo que não haja nenhum. Não deve haver mais princípios. É o que sinto. Vamos ver.

Por ora, lembro-me dos olhos que me tiraram a vida. A minha vida profissional que tanto dei. Tanto estudei. Da voz também. Por vezes é disto que me lembro no dia-a-dia. Mas nunca tudo por completo. As frases, nem essas me lembro por completo. As frases da pessoa que me roubou a vida. Dos olhos sim! Dos olhos da pessoa que me olhou de lado, com medo dos meus olhos e me disse que eu tinha acabado. Teve medo - senti, que eu falasse. Mas eu não disse nada. Ainda ouvia - nesse tempo, mas já não falava. Fazia quase dois anos que nada dizia. Trabalhava quase sempre em silêncio. Num silencio que nem eu me ouvia, quando todos os dias desembaraçava as coisas urgêntes. Não esqueço. Não posso esquecer os olhos que tiveram medo de me olhar naquele dia. Eram olhos de cobardia. Não esquecerei.

Dos amigos, ficarei com eles. Nunca vagamente.

Não sei o que sinto.
Não sei o que dizer.
Também não sei o que deva fazer.

.. No emprego as coisas correm muito mal.



(.. 21Mai’08) (2)

1 comentário:

Anónimo disse...

a minha força estará contigo sempre. beijo (a)