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sábado, 20 de setembro de 2008

Lucidez.

Recuperar o irrecuperável.
Todos julgam recuperar o irrecuperável. Há quem de noite, em discotecas e ou similares – acreditam que vão divertir, procure desesperadamente a alma gémea, como se existisse, e afogam-se em líquidos de má qualidade. Gasta-se de mais. Bebe-se de mais. Vive-se numa alegria falsa e a vergonha é sempre uma saída, para quem não tem vergonha de si e de nada. O que parece normal é um engano em que cada um pretende enganar-se, e aos outros também. Uma família não se escolhe. Criam-se laços, laços que na maioria das vezes se esvai-se num só instante, sem querermos. Por detrás de tudo há medo. Um terror. Seja o que for, ninguém mostra o medo que tem das coisas que tem medo. A vergonha não é tudo, nem é coragem, é só mais umas coisas que não queremos acreditar que fazem parte de nós. Coragem, essa, também é mentira. Os solitários ficam em casa, por necessidade ou que seja, escolha própria. É mais fácil viver em solidão do que o insuspeitado – digo eu.
O sono ultimamente volta-me embrulhado em modelos esquisitos, quer fique com os olhos muito abertos ou que finja que os feche. Não prevejo o futuro que me aguarda. Doenças, até nisto e por enquanto sou muito pobre. Velhice. Morte, naquelas casas de repouso para os fora de prazo. Só consigo prever o que quero muito para mim neste momento, o que por vezes me trás amargos de fé, imensos. Só no mar, debaixo da água salinada – sempre pensei assim, se encontra um silêncio que tudo absorve. Uma paz que não existe mais em parte alguma. Os dias sucedem-se devagar, arrastam-se. Não consigo fazer népias que equilibre a mente que anda desordenada. Ultimamente ando encalhado num mar de coisas que não se resolvem com mãos minhas, e pior é que nem com mãos diferentes.
Olho com verdade para as faces de gente jovem que me passam, de lado, de frente, de um lado qualquer, e tenho dó deles. Sinto-lhes os sonhos e é tudo muito vago e muito distorcido. Sorrisos largos para estarem bem. O presente é mais que suficiente. Cada um é um mundo que não pretende ser desvendado, esclarecido, explicado. É outra lucidez.
Agora vejo as coisas de forma diferente. Era jovem e cresci. Deve ser por isso que me levo a distorcer as coisas que não acredito mais. Quando todos se juntam em redor do álcool e do som da moda, ninguém quer saber dos olhos de dor dos outros, só, isso sim, como é que hoje vou ser melhor predador para me sentir melhor? É outra lucidez.
Mas todos continuam a escolher os mesmos rituais, os mesmos lugares, as mesmas piscadelas de olhos, e ninguém tem a coragem de entender que esse, é só um lugar e um momento que não faz parte de nada. Vive-se uma liberdade proibida. È como as dança. O movimento dos corpos não segue qualquer regra. O escândalo vive-se. Os excessos tentam-se controlar. Gosta-se sempre de alguém, mas ninguém quer saber de ninguém. Não vale procurar, perdemo-nos. E depois de nos perdermos no álcool de alguém e as luzes do dia baterem-nos nos olhos, sim, é outro dia e aqueles lugares não nos deram nenhum valor acrescentado que nos faça ter um futuro melhor. No final, passamos a vida a mentirmo-nos e a mentir aos outros. É a lucidez - vulgar.
Tenho cá para mim que na nossa pior idade que é aquela que ninguém nos quer, vamo-nos encontrar numa casa de repouso onde hoje ninguém quer estar. Ai sim! Olhamo-nos uns aos outros com a fé que nunca quisemos saber outrora. É tarde, digo eu.
Acredito que no final das nossas vidas, não são os que mais mentiram ou viveram em divertimento, morrem mais felizes.
Deformo-me em tempo útil.

(.. 20Set’08)

2 comentários:

Anónimo disse...

Gostei da tua irrecuperabilidade. Beijo

Anónimo disse...

Gostei da sua escrita, forma e conteúdo. Continue |anarquista| de amores, voltarei a ler sempre que for possivel. É bom saber que existe pessoas, principalmente homens, que escrevem ainda com o coração cheio de coragem e lágrimas. Felicidades.