Procurando arquivos no meu antigo e quase extinto baú, encontrei um texto muito bem estruturado que publico em duas partes (sabia que já tinha lido algo sobre o assunto e que o assumia por alguma razão). De alguma forma este, quando o li, enraizou positivamente a minha vontade e forças para não abdicar das raízes de como sobrevivi e nasci. Agora já adulto, continuo com rasgos de apetência para estar só (só não é isolamento). Ninguém tem culpa, sou assim, é de berço. A confusão das relações pessoais continuam a ser um caos e cá para mim, não me dou nada bem com omissões e coisas semelhantes. Estar só não é fugir a responsabilidades como muitos pensam. Sempre gostei e gosto de estar com gentes. Enfim, partilho e faço minhas as palavras, pelo menos é o que penso e sinto na maior parte dos dias, nos bons e maus momentos.
Solidão é requisito para nascer e para morrer.
Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver. Sem ela não me ouço, não empreendo, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis. Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos. Não penso desprendido, não mato dragões, não acalento a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só. Sem ela sairei por aí, com os olhos inquietos, caçando afecto, aceitando migalhas, confundindo estar cercado por pessoas com ter amigos.
Sem ela me manterei aturdido, ocupado, agendado só para fintar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei ideias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazio em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, desconheço-me, perco-me.
Solidão é o lugar onde me encontro a mim mesmo, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.
Num mundo superlotado, onde tudo é efémero, voraz e veloz, a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso, a solidão pode ser alimento e não fome. Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado, a solidão pode ser a trégua e não luta. Num mundo tão “stressado”, imediatista, insatisfeito, a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais, a solidão pode ser protecção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser liberdade e não fracasso.
(.. 12Dez’08)
Nota: Textos do meu baú, ano 2003. Não sei onde copiei, mas creio que foi numa revista qq.
Solidão é requisito para nascer e para morrer.
Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver. Sem ela não me ouço, não empreendo, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis. Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos. Não penso desprendido, não mato dragões, não acalento a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só. Sem ela sairei por aí, com os olhos inquietos, caçando afecto, aceitando migalhas, confundindo estar cercado por pessoas com ter amigos.
Sem ela me manterei aturdido, ocupado, agendado só para fintar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei ideias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazio em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, desconheço-me, perco-me.
Solidão é o lugar onde me encontro a mim mesmo, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.
Num mundo superlotado, onde tudo é efémero, voraz e veloz, a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso, a solidão pode ser alimento e não fome. Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado, a solidão pode ser a trégua e não luta. Num mundo tão “stressado”, imediatista, insatisfeito, a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais, a solidão pode ser protecção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser liberdade e não fracasso.
(.. 12Dez’08)
Nota: Textos do meu baú, ano 2003. Não sei onde copiei, mas creio que foi numa revista qq.
