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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Silêncio.

O dia hoje está bem pior do que me sinto. Os dias cinzentos não me fazem nada bem. Não gosto. Não me dou bem com o céu escuro, muito menos com temperaturas frias. Apetece-me calar. Ficar calado é um predicado em mim, paciência. A maioria dos dias assim afectam-me porque o calor não me chega e assim não consigo dar, sentindo-me como quem lhe falta tudo e nada lhe falta, não sei se preciso, se tenho, se já não tenho, ou se não mereço ter o que extravaso em expectativas de meninice ainda.
Nestes dias incomoda-me o facto de ter lembranças estúpidas, por exemplo: o de não ter vivido em comunhão de família. Afecta-me o “nunca" ter conhecido os humanos que me fizeram - excepto a minha mãe, que a conheci vagamente em idade infantil meia dúzia de vezes e, de repente aos dezassete anos, que até parecia que desta vez é que era para sempre - tinha acabado o Curso Industrial. Mas não foi assim. Como outras que conheci, "queria-me para trabalhar". Dezassete anos são muito poucos e fui a outro caminho. Escolhi o exército. Mandaram-me para a Guiné. Era muito novo, mas tudo era melhor do que ficar com uma “desconhecida” que "queria que fosse trabalhar"! Sim sei, os tempos eram outros e "degradantes" também. Só que me apetece muitas vezes gritar-lhe(s), desfeando a minha parca educação onde quer que esteja(m).. ôda-se! Deus sabe! Não me mereceram! Tão pouco merece(m) que perca algum tempo a entender estas coisas. São só lembranças más.
Tento lidar dia-a-dia melhor com cada situação, sendo que sei, tenho de moderar a minha impaciência, os meus ímpetos, esfriar as expectativas, pelo menos continuar a sorrir perante situações adversas porque ainda não me permito capitular, é que o futuro que almejava é cada vez mais ténue.
No ano anterior conheci muitas pessoas, pouquíssimas ficaram - é o costume. Ainda não aprendi a calar, só a silenciar (ainda sou de tudo ou nada), mas estou a seguir os trabalhos de casa, quer dizer, pelo menos penso que executo todos os exercícios, não saltando nenhum e alguns até são muito difíceis. Amigos ficaram, mas a maioria na minha nova deformação, os que já não precisam mais de mim, estão cada vez mais longe, e isso é um facto, pudera, já o sabia, nada de novo no horizonte.
Desde o início deste ano, venho pautando pela construção de cenários. Hipotéticos. Cenários construídos sobre alicerces da insegurança, cada dia que passa pior. De facto os cenários constroem-se de acordo com o nosso estado de espírito e os cenários alteram constantemente as minhas deixas, impedem-me de ser quem quero ser, atrofiam-me, principalmente as exigências de passos maiores que a perna, pelo menos é o que enxergo nestes dias sombrios.
Reconheço cada vez mais que não adianta ler, cantar poesias ou frases feitas para pôr para fora o que quase explode dentro de mim. Estou em aflição. Hoje o que mais queria era fazer uma coisa diferente. Andar pela terra. Sentir os pés no chão. Encontrar uma mão que me fizesse um ser constante. Darem-me um abraço leal e voltar a sentir o brilho que outrora todos viam em mim.
Assumo, não tenho paciência para fretes e tenho vindo a deixar de os fazer, mesmo sabendo que não se julga ninguém pelo seu exterior, tenho vindo a melhorar os meus julgamentos. Se me sinto melhor? Tenho dias bons e outros menos bons, como sempre, porém os gatos e os cães que passam por mim na rua já não fogem.
Tenho saudades dos tempos que levitava, via as coisas com as suas cores brilhantes, profundas e até das mentiras, omissões. Ria-me muito nesse tempo. Hoje não estou pior, cresci, anteriormente era uma felicidade submersa no "faz de conta", mesmo que ainda hoje ensaiam dissemina-la. Hoje os cenários mudam constantemente em velocidade que não quero seguir - os sentimentos estão à flor da pele, e por muitas razões a vontade é de gritar. As omissões aniquilam os leais.
Bom, hoje apenas quero estar em algum lugar onde sinta uma enorme calmaria. Tranquilidade. Onde de mansinho possa escutar apenas as ondas do mar e através delas, conseguir sentir paz no meu interior - aquela paz que nos diz; está tudo bem. Melhor ainda; tudo vai ficar bem.
Hoje simplesmente simples; só preciso de silêncio, não me perguntem porquê, “ninguém” me fez mal, só quero estar sozinho.

(.. 19Jan’09) (2)