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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Penitência (II)

Incongruências com o passado. Hoje, amanhã e sempre.

(continuação)

(gentes normais)
- Que parvoíce! Com esta idade e ainda tão inocente!
- Acorda para a vida, ó careta!
- Amor e uma cabana?
- Amor até ao fim e não para sempre?
- Ainda acreditas no dia em que as crianças viverão e concretizaram não os seus pesadelos vividos, mas sim os seus sonhos?
- No dia em que a vizinha não fechará os olhos aos maus-tratos familiares praticados pelo vizinho?
- Amizades honestas e sadias?
- Acorda! Acorda estúpido! Acorda para a vida!
- Entra na real!


É isto e mais. É o que gente lúcida e mais desperta do que eu, afirma de mim vezes sem fim.
Pensando bem, é patético! Para isso era preciso que me deixassem de chamar romântico, ou boa gente. Impossível! Um romântico ou gente boa como eu não se conforma. Morre teimoso. Não à remédio que me valha! Ainda não acredito que o mundo é uma selva, matar para não morrer.
Sonho com o dia em que pautaremos as nossas acções com respeito pelo próximo. Acredito que tememos pensar por nós próprios, acabando os nossos dias adaptando-nos ao ambiente que nos rodeia em vez de adaptarmos o ambiente a quem realmente somos.
Repito-me; acredito que acontece porque não nos conhecermos nem nos aceitamos. Passamos mais tempo a disfarçarmo-nos para iludir os outros que esquecemos quem somos e ao que viemos.

(gentes normais)
- Malucos estes românticos!
- Pensam que a vida é rosas e mais rosas!
- Mais, dizem que as pessoas trabalham e trabalham apenas para se manterem de pé.
- Acreditam piamente, "Que o dinheiro não é tudo na vida". Só ajuda! Só dá um empurrãozito.
- Que as mulheres ainda se conquistam com flores. Cartas de amor. Cavalheirismo e igualdade de necessidades e sentimentos.
- Jantares á luz de vela e beijos de fazer balançar as pernas.
- Que bom mesmo era no tempo dos nossos avós, sem televisão ou computadores.
- A jogar ao esconde, saltar à corda, jogar à macaca, ao pião, aos médicos, saltar ao eixo.. era mais saudável, divertido e social que qualquer programa hoje habitual.
- Que a amizade não se conta pelo hi5 e similares, mas por aqueles que nos ouvem quando não falamos. Que nos entendem pelos gestos involuntários. Que nos decifram o estado de espírito pelo olhar. Sabem sempre onde estamos e nos mimam quando tudo corre mal.
- Que estes são os que chamam amigos, amigas, irmãos, irmãs, amores, às vezes até batatas, trengos e trengas.
- São a quem confidenciam no ouvido.
- São os que dizem NÃO, quando todos dizem SIM.


Perniciosa venda que me torna romântico, honrado e leal. É, sei muito bem, é doloroso viver com ela bem junto da pele, mas admito, são esses os meus amigos, os que choram-se injustamente, trato-os por igual. Trato-os com cuidado, especial amor e respeito, calando até ao meu limite, as minhas diferenças.
Esta venda torna-me a vida mais difícil, não me deixa enviar desculpas por SMS (era mais simples), mas obriga-me a colocar o joelho no chão, ramo de flores na mão e beijo sentido.
Os tempos estão difíceis. A velhice engelha e cobre-me a pele. A venda molda-se cada vez mais à vista. É, o melhor é habituar-me e aceitar quem sou - apenas um pobre maldito e convencido, que nasceu em dia não e lhe chamam romântico trôpego. Falo em demasia, quando devia aceitar tudo. Não ter opinião. Aniquilar a identidade. No geral, quando me pedem uma opinião e ofereço diferente ao receptor, até mesmo diferente dos amigos (!), sou complicado, dizem.
Pelo menos devia aprender a emudecer até morrer, carregar a minha índole desajustada dos que vivem de feições reais que não a minha.


(.. 02Abr’09).