Da janela da minha vida, neste instante, vejo o mar. Esse mar que não tem dono e pode desvendar as mais variadas cores. Queria agora como tantos outros que sonham, olhá-lo colorido. Mas tudo depende da alma que nele se reflecte. Penso que deve ser assim ou é mais ao menos.
Hoje o dia está meio claro. Quer dizer, não presta para nada. Sinto o verão a fugir-me sem ter comido à sua mesa. As razões são diversas, as minhas, e por mais que tente lembrar-me, não quero saber, porque é que nunca aceitei o convite da época quente. Tinha que ser.
Hoje que olho, deixo-me transportar a lugares passados. Pessoas que se tornam presentes mais uma vez como figurantes de uma história secreta ou, de um destino passado ou, do acaso. Pensando no que vejo, no fundo, nada foi por acaso. Ou então, só o essencial, que tudo o resto decide.
Às vezes quando o mar me chega, confunde-me. Casas onde vivi. Aromas passados. Pessoas que se diluíram metamorfoseando com o tempo e o esquecimento.
Sei que nada mais igual acontecerá, se não a continuação do há muito. O tempo não se esgota. Só o meu. E o meu começou muito antes para que eu viesse e me leve de novo a repousar e ficar abrigado para sempre.
Ao olhar o mar, uma doce – sinto, melancolia toma o meu peito. Tremo. O coração, sinto que falha (tenho de ir ao médico). Não veria uma baleia que passasse no horizonte. Mesmo que voasse. Mesmo que me chamasse. De momento a brisa toca-me com o aroma dos sonhos e olho com os olhos da alma.
Aceito o destino das coisas do mundo por mais gloriosas que tenham sido, por mais aparentemente imperecíveis. É difícil aprender a viver num lugar que já não se tem no mundo. Os eternos mal-entendidos com os outros a quem é necessário perdoar todos os dias. A inveja que fere mais ainda por se desconhecer os motivos. O tempo tem destas merdas.
Não regressaria ao mar se não pela memória, pela melancolia. A sós, tudo nos é aberto sem omissões, sem qualquer vergonha. A sós, somos leais e o branco, é branco.
Lembro-me da velha palavra de ordem; viver a vida no presente. Ganhar dinheiro. Misturar-me com os outros fazendo de conta que era como os outros. Pois! Todo o passado, a uma distância perdida, é o que é.
Há quem não aguente entrar num supermercado sem sentir logo uma agonia no coração ao ver tantas e diferentes mercadorias e não conseguir escolher alguma. Quando escolhe, cada vez mais o pouco reflecte o passado. Há quem não aguente ver um país que já foi. Ver a coerente destruição do que ainda se mantém de pé. Ver gentes que se dizem “verdadeiros democratas” a mentir todos os dias. Hoje perdem a vergonha, dizem corajosamente na cara, na cara as mentiras.
Nem só de olhos fechados se consegue viver no mundo. É estranho. Quero eles sempre bem abertos. Olho o mar o sonho que vai diluindo no passar do dia.
Sinto necessidade de um refúgio. Místico, mágico. Com sentido, ao qual me entrego de vez em vez sem fazer qualquer pergunta ao Deus que nunca me abandonou. E quando chorava, Ele fazia presença. Deus esteve sempre comigo, mesmo nos acasos.
Também houve tempos de alegria, de inusitado entusiasmo em que tudo parecia avançar. O tempo traz destas certezas e destas merdas que, vá lá saber-se a razão, não se apagam. Põe ordem nas coisas e nos sentimentos. Só de longe se vê quem de facto importa, o vulto que se distingue, porque enganos há muitos. Paixões de dias. Horas. Minutos.
Andei muito por aí em busca de palavras para encher as coisas da vida, dos momentos, sejam eles de emoção ou de silêncio - senti. A brisa fresca acorda o sonho que via no horizonte. O cigarro desapareceu no cinzeiro. Bocejei. Estiquei as pernas, espreguicei e olhei o relógio.
Lembrei-me do acaso que tudo transforma numa imperiosa necessidade.
Olhei mais uma vez a areia (ou o mar?) que reflectia os sonhos. O pó é o último, o único destino dos sonhos.
(..17Set’09) (2)
Hoje o dia está meio claro. Quer dizer, não presta para nada. Sinto o verão a fugir-me sem ter comido à sua mesa. As razões são diversas, as minhas, e por mais que tente lembrar-me, não quero saber, porque é que nunca aceitei o convite da época quente. Tinha que ser.
Hoje que olho, deixo-me transportar a lugares passados. Pessoas que se tornam presentes mais uma vez como figurantes de uma história secreta ou, de um destino passado ou, do acaso. Pensando no que vejo, no fundo, nada foi por acaso. Ou então, só o essencial, que tudo o resto decide.
Às vezes quando o mar me chega, confunde-me. Casas onde vivi. Aromas passados. Pessoas que se diluíram metamorfoseando com o tempo e o esquecimento.
Sei que nada mais igual acontecerá, se não a continuação do há muito. O tempo não se esgota. Só o meu. E o meu começou muito antes para que eu viesse e me leve de novo a repousar e ficar abrigado para sempre.
Ao olhar o mar, uma doce – sinto, melancolia toma o meu peito. Tremo. O coração, sinto que falha (tenho de ir ao médico). Não veria uma baleia que passasse no horizonte. Mesmo que voasse. Mesmo que me chamasse. De momento a brisa toca-me com o aroma dos sonhos e olho com os olhos da alma.
Aceito o destino das coisas do mundo por mais gloriosas que tenham sido, por mais aparentemente imperecíveis. É difícil aprender a viver num lugar que já não se tem no mundo. Os eternos mal-entendidos com os outros a quem é necessário perdoar todos os dias. A inveja que fere mais ainda por se desconhecer os motivos. O tempo tem destas merdas.
Não regressaria ao mar se não pela memória, pela melancolia. A sós, tudo nos é aberto sem omissões, sem qualquer vergonha. A sós, somos leais e o branco, é branco.
Lembro-me da velha palavra de ordem; viver a vida no presente. Ganhar dinheiro. Misturar-me com os outros fazendo de conta que era como os outros. Pois! Todo o passado, a uma distância perdida, é o que é.
Há quem não aguente entrar num supermercado sem sentir logo uma agonia no coração ao ver tantas e diferentes mercadorias e não conseguir escolher alguma. Quando escolhe, cada vez mais o pouco reflecte o passado. Há quem não aguente ver um país que já foi. Ver a coerente destruição do que ainda se mantém de pé. Ver gentes que se dizem “verdadeiros democratas” a mentir todos os dias. Hoje perdem a vergonha, dizem corajosamente na cara, na cara as mentiras.
Nem só de olhos fechados se consegue viver no mundo. É estranho. Quero eles sempre bem abertos. Olho o mar o sonho que vai diluindo no passar do dia.
Sinto necessidade de um refúgio. Místico, mágico. Com sentido, ao qual me entrego de vez em vez sem fazer qualquer pergunta ao Deus que nunca me abandonou. E quando chorava, Ele fazia presença. Deus esteve sempre comigo, mesmo nos acasos.
Também houve tempos de alegria, de inusitado entusiasmo em que tudo parecia avançar. O tempo traz destas certezas e destas merdas que, vá lá saber-se a razão, não se apagam. Põe ordem nas coisas e nos sentimentos. Só de longe se vê quem de facto importa, o vulto que se distingue, porque enganos há muitos. Paixões de dias. Horas. Minutos.
Andei muito por aí em busca de palavras para encher as coisas da vida, dos momentos, sejam eles de emoção ou de silêncio - senti. A brisa fresca acorda o sonho que via no horizonte. O cigarro desapareceu no cinzeiro. Bocejei. Estiquei as pernas, espreguicei e olhei o relógio.
Lembrei-me do acaso que tudo transforma numa imperiosa necessidade.
Olhei mais uma vez a areia (ou o mar?) que reflectia os sonhos. O pó é o último, o único destino dos sonhos.
(..17Set’09) (2)
