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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Disforme

Não se sabe para onde virar os olhos quando só a angústia é pura. A beleza é um perigo – apesar de ser emprestada, é nefasta, conduz ao delírio e isso, as gentes belas sabem e usam-na em proveito, mal. Os outros sonham. Já não se lembram de nada. Já foram os mais belos. A todos é dado um corpo e um espírito - fé. Esquecemos de propósito; o empréstimo passa por todos. Ninguém vem ao mundo feio – é o que sinto.
Há meses que não tenho nada para dizer, não digo nada da vida. Sei só que a vida que levo não deve ser propriamente uma vida, porque nela nada acontece. Há meses que não faço patavina. Esqueço ultimamente os livros. Quanto mais escrever. Só coisas tristes me revoltam a cabeça, muito tristes e choro. Deve ser por isto tudo que o que penso é lixo e o que escrevo não presta para nada. É-me impossível imaginar que alguma alegria ainda viesse ao meu encontro. Uma tristeza ruim, não conseguir cantar e o mundo virar, para que os dias melhorem, pelo menos aos que eu mais amo. Precisava disso. Precisam eles.
Tudo o que está a mais dói. Não vale de nada correr para nenhum lado. Só Deus sabe porque empresta beleza a uns e não a outros. Cada um tem uma só oportunidade. Chegou a vez de uns que não outros - sei, a minha já foi. Não aproveitei o suficiente, sabendo que padeceria e voltava num corpo abstracto cheio de preguiça para revirar os olhos a todas as belezas que o tempo torna a recordar-me. Um truque de mágica, só pode, executado em perfeição por Ele.
Ficar por aqui eternamente mudo, é um destino. O mar bate muito ao longe. É o coração a penar, avisa, pelo menos a mim avisa-me, não quer dizer que lhe ligue alguma coisa. O normal é não acreditar, essa é que é essa.
De natural tudo nos falta. O artificial é um logro. Somos feitos de pó que deixou de ser feito. Perdemos a palavra num lugar qualquer. Ninguém oferece valor às palavras ditas. Ninguém acredita. Assim, mais vale escapar para o lugar onde não seremos vistos. A traição que nos agarra pelas costas. A alegria breve. O que ficou por dizer. Os dias felizes. Isto sim.
Cada um tem uma história poderosa nunca resolvida. O amor excita a vida a ser vida. Todas as idades são fantásticas. A mim tanto me faz. Já estou em declínio. Enlouquecido.
Até lá durmo escondido no corpo que me acolhe todos os dias. Sofrida pelos azares do tempo, da vida. Gosto de estar. Sinto-me “gostado”, seguro, é um bom alívio.
Não sou disforme. Só se devia poder roubar a coragem.

(.. 15Out’09)