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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Silêncio..

.. por baixo do silêncio.

Coragem e dignidade é uma merda, não tenho de momento e não quero ter nada dessas merdas que se colam pelo fingimento - é bom que todos lutem por ter estas merdas, recuso, o momento é a única coisa válida mesmo que seja passageira, ou que seja um pequeno sentimento. De momento estou a pensar no que me colheu. A doença é uma merda. Derrubou-me. Prostrou-me. Dificilmente consigo entender seja o que for, quem for, que não queira entender-me, deitou-me a baixo e isso só eu sei e só eu sinto o quanto.
A médica encarregue de acompanhar a malta que foi atingida por esta merda, procurou moralizar-me, desdramatizando este tipo de acidente e garantiu-me que a ciência já sabe muito sobre como enfrentar e vencer – acho que sou eu que tenho de fazer tudo, os médicos só têm que dizer umas coisas, uns falam de branco e outros de preto, só tenho que interpretar.
Estou convencido que a merda que tive que quase me “amandou” para o céu – claro que já tinha reserva, não me vai incomodar mais e nem sequer será necessário chatear-me mais com as pessoas de bata branca que, sempre que exercem o direito de arremessar palavras nada dizem de concreto – eu pelo menos não ouço o que dizem, parecem chineses, mas eu sou apenas um gajo a conduzir um camião TIR carregado de frases e sentimentos optimistas para o meu assunto pessoal.
Não tenho próximos dias, tenho meses e serão decisivos, no meu caso – um ano. Enquanto esta indefinição pairar na minha cabeça, sobre a minha vida, sinto-me incapaz de esquartejar palavras positivas seja para o que for. De momento não quero ser o bom, só quero ser o pior para não me sentir abandonado por mim na doença. De mais gentes nada tenho a dizer, faz muito tempo que tive de desistir dos outros porque, fiz um raciocínio lógico sem lágrimas.

(.. 01Out'10)