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sábado, 9 de dezembro de 2006

Sonho número não sei quantos.

Dia marcado! Nos veremos quando as nuvens formarem o seu ninho. Ai sim! Viveremos a nossa vida, a que sonhámos, a que merecemos.

Enrosco-me cada vez mais na vida que não pinto em qualquer sonho que não nasceu no meu coração.
O horizonte perde-se, esfuma-se a cor, vai o sentir, atiça-me o pouco despertar que molda o sentido da vida que quis um dia sonhar. A vida trabalha-se, quem quer, eu não nasci para a trabalhar, sim para a sentir, se acontece e quero, abraço-a, deixando-a, se me é estranha, sem mar.
Perdi-me outra vez, porque os encontros não são exequíveis de equilíbrios, tão pouco de quereres, nem as convergências são obrigatórias assim, distorcidas de vontades de um, eu, que insisto em divergir porque não é o sonho, o meu sentir, que me chega na mão para me alimentar a boca da alma que me satisfaz.
Deixo de ser razão, não sou o que outros querem que eu seja. Não sou. Sou um estranho que habita em solidão plena de defeitos mas de um só sentir.
Olho o horizonte e não vejo o que queria ver.
Esfuma-se piamente o que outrora via com paixão. Perdi o tempo. Sinto a falta de tantas coisas, como do meu tempo de ontem.
Não me encontro em lugar nenhum, ainda não sei o que perdi para encontrar.
Vai acontecer, tudo acontece.
Todos para o diabo, quem não aceita as ironias do destino?
Tentei voltar, desci, tive medo, tenho medos, não aconteceu, e eu não quis, perdi-me.
Sonho. Consigo reter as particularidades do melhor sonho, mesmo a cor mais ténue, deixei de a ver, porque não é aqui mas sim ali que eu devia estar, pertencer.

Sonho:
“Cruzou-me e eu voltei-me para a ver. Lentamente a rua descia e subia ao mesmo tempo. E então ela virou-se para trás e via a sorrir com um sorriso que dizia: Sou linda e tu nunca me vais ter.”

As promessas do amor cumprem-se tão dificilmente. Passados dias o desejo sufoca tudo em volta por inteiro, ouve-se a custo uma só respirar.
Revejo vezes sem conta os dias, e o que devia ser agradável é um tormento. Durante o dia tudo pode ser atrevido de doçura, promete-me a vida, mas eu desejo o silêncio, o prazer, não me satisfaz porque não consigo estar ali. Porto-me como um homem, mas doía-me no coração e no estômago.
Ponderei tantas vezes se a culpa era minha – queria tudo mas nada faz sem também o ter, e apertava o estômago para deixar de sonhar. De algum modo sempre que tentava insinuar “amor”, eu desfazia com um gesto, uma pequena arrelia. Entretinha-me, durante o passar dos minutos, a fazer coisas que nunca quis fazer, para deixar de sonhar as coisas que sempre quis fazer.
Por vezes dou-me noutros lugares para acreditar que sou capaz de mudar os sonhos que se vão apagando da memória, com a idade ou porque quero acreditar que assim é.
Procuro cada vez mais outros lugares para acreditar que minto cada vez mais a mim e ao meu corpo interior. O sexo, o meu, minto-lhe todos os dias. Digo-lhe que já foi tempo, agora deixei de sonhar.
Não quero pensar em mais nada, não preciso de mais nada, não quero saber de mais ninguém. Foi num lugar lá em cima quase tão perto de Deus, que deram cabo de mim.
A beleza é um sopro de luz, com cheiro a mar, e o suor mesmo em tempos de frio, corre sem secar, de lá para cá e no lado de cá deixa o cheiro que queremos que fique dentro de nós.
Por isso tenho medo. Por isso não quero ficar aqui. Amou-me muito, diz ela e eu amei-a muito, muito, digo eu que sinto que ainda a sinto, ameia à minha maneira. Cada pessoa tem a sua maneira. É um direito. Foi amor à primeira vista. Há quem não acredite, coitados. Não me arrependo. Dou-me logo todo. Não jogo e não negoceio. Digo tudo o que me vem ao coração. Não minto, tanto quanto me é possível dominar as palavras. Não vale a pena mentir porque o mundo é, de igual modo, inclemente.
Não quero encontrar-me. Gosto de sentir que estou perdido, pensando que vai acontecer de novo e mais uma vez que seja, o meu, o nosso, o sonho que sonho tantas vezes.
Agora que desisti de me encontrar, dou-me melhor comigo. Não espero que gostem de mim. Quando gostavam de mim era de outra coisa da qual gostavam. Isso é o que acontece, tenho a certeza. É isso que me fere. Ainda custa às vezes, porque sei que estou a fugir e que isso é sempre vão.
Não preciso de ter pena de ninguém, nem de mim, não serve de nada, Já houve tempo que julguei salvar um pouco do mundo. Era outro eu, sem dúvida. Não vale de nada lembrar-me. Gosto muito de esquecer de mim.

(.. 09Dez'06)

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