A partir dos cinquenta, li em tantos lugares comuns e menos comuns, já nada é espontâneo, nem a dor nem o prazer. Ultimamente é isso que sinto e é disso que me lembro quando os apetites me nascem na pele.
Ultimamente almoço muito pouco, para não dizer que quase nada me convém. Não sei se é da idade, se é da nova vida, se é das coisas que pensava que iriam me dar prazer e é verdade, o prazer esfuma-se a olhos vistos, apesar de, quando vejo umbigos em pele lisa me apetecer lamber como quem lambe uma cria. Tenho prazeres guardados em qualquer lado e por mais que os procure não os encontro quando quero servir-me. Não sei se é da vida, dos problemas novos, da insatisfação do dia-a-dia, sei que não os encontro quando os devia encontrar logo pela manhã.
Já não acho as paisagens tão bonitas, nem o Sol que pelo tempo se acanha. É previsível o seu curso. Passos dias a dar comigo em pensamentos familiares e quando são muito familiares, deixo de os ver. Deve ser isso que me faz entristecer nos momentos que mais preciso de ânimo. Fecho-me com a certeza de que isto, como o resto, há-de passar. É a dor da vida. Nova. Das coisas que quero. Queria. O cansaço enevoa os olhos. A falta que em tudo habita, auguro irreversível – talvez. Às vezes nem vejo a sombra que deveria fazer-me companhia. Nos dias bons e nos dias menos bons. Não venceria a própria sombra. A deformação que arrogo não é condição de vida nem me pertence porque nasci com defeito pensando que podia ser outro.
Quando penso nos prazeres que me pertencem, penso no tempo que preciso para que o prazer seja total É difícil. O prazer dilui-se e eu não consigo perceber que mal habita em mim, apesar de respirar bem e gostar das coisas ténues que advém em mim.
É muito tempo que passa para que as coisas mudem de rumo. É muito tempo para mim. E quando é muito tempo, é preciso muita coragem para que o tempo seja esquecido. Pareço a criança que quer já tudo montado e tomar controle da sua própria vida.
O que sei é que a vida me levou para caminhos que nunca tinha pensado antes e agora não sei o que fazer mesmo que procure fazer o impossível para que a vida e os dias sejam o melhor possível. Quase sempre nunca sei o que fazer, é como agora, não sei o que escrever sobre o tempo que cada vez mais tropeça sem fazer qualquer lágrima. Dizem, todos, quase todos, a vida está má e eu digo; está um caos.
Sim é esta a vida que levo, mesmo que não queira, é a vida que soçobra em mim agora, apesar de ser feliz ou quase feliz por outras razões muito melhores.
Há mal-entendidos que nunca convém alimentar. Foi assim que fiquei sozinho noutros tempos apesar de tentar melhorar. Talvez da maneira errada. Agora, mesmo que quisesse recomeçar não tenho tempo e este não mostra qualquer compaixão quando houve alegrias que bastassem. É justo. Quase gosto da vida que tenho.
Ai se não fosse a que gosta muito de mim. Ai, ai!..
(.. 25Nov’08)
terça-feira, 25 de novembro de 2008
É justo.
Escrevinhada por:
SepolOm
às
11:07
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2 comentários:
Gosto muito de te ler. Beijos
Humm...
Mais um belíssimo texto. Ousado.
Beijinho menino simpático :)
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