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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Downshifters

Sempre fui um “Downshifters” sem o saber, agora sei e sinto vontade de sorrir. Devo ser, desde que deixei de aceitar horas extraordinárias na empresa onde trabalhava. Aconteceu mais ou menos no início do ano do senhor, 1990.
Tinha concluído por essa altura o Curso de Design do IADE - Lisboa. Queria saber mais. Queria ganhar mais. Queria um novo desafio, um melhor novo emprego. Nessa época, “anos 90”, tive dois convites para integrar, em agências de publicidade na zona de Lisboa, como Designer Gráfico.
Ainda aceitei fazer psicotécnicos e aceder a uma entrevista depois de aprovado na anterior. Marcou-me profundamente, a entrevista. Pediam-me disponibilidade total. Essa a condição essencial, primordial e não a sociabilidade entre o grupo. Também não deveria ter família (filhos menores), tão pouco pensar em cria-la nesta altura, se acaso fosse seleccionado - lembro-me. Os horários podiam ir pela noite fora, como também pelos fins-de-semana e ou feriados. Ganharia no início, três vezes mais do que ganhava actualmente e o futuro era muito promissor, pelo menos monetariamente. Acho que foi desde ai que iniciei uma nova atitude de estar na vida e no meu emprego, o dinheiro não seria tudo e isto sim:

- Fazer o que mais gostava;
- Gostar de estar onde trabalhasse;
- Ter tempo justo disponível para a família e para mim;
- O ordenado seria uma bênção adicional.

Com esta atitude, ganharia menos, muito menos, mas não abdicava do tempo familiar. Tive muitos dissabores. Outros, adquiriam; boas casas, carros e muitas coisas que qualquer pessoa gosta de ter. Deixei de ter isso tudo pelo prazer de não me vender e fazer da minha vida o que mais queria – vivê-la.

Hoje, passados tantos anos, aprendo que afinal há muitas pessoas pelo mundo que optaram e a optam pelo mesmo ideal; Ganhar menos e viver melhor. São os chamados: Downshifters. O termo foi apropriado da palavra "downshift", que significa, passar para uma mudança abaixo no carro ou na mota, ou seja, abrandar, desacelerar. O objectivo é mesmo esse: abrandar o ritmo de vida.

Pronto, afinal também sou um “coiso e tal”. Apesar deste ideal, não quer dizer que tenha tido uma vida fácil ou melhor do que outros que se martirizaram, mas quer dizer que faz anos que decidi que o dinheiro não era tudo para mim, ou melhor, os objectivos da minha existência não passavam por qualquer valor material, e isso sim, passavam pela liberdade que pudesse ter para mim e para os meus.

Na maior parte da minha vida anterior, não fui compreendido, mas compreendi-me sempre melhor. Senti-me sempre bem e consegui estar bem comigo e com a vida - pelo menos até hoje. Outros deixaram morrer a vida, e compraram, melhores casas, melhores carros, melhores artefactos, etc e tal, coisas que ainda hoje não dou valor que talvez mereça.
Vi o Sol. Vi o mar. Outros países. Outras gentes. Não posso dizer o mesmo das gentes que passaram por mim, mas sei que a maioria têm essas coisas todas, mas nunca viram um pôr-do-sol a namorar-me. Não têm tempo, dizem.

Nada tenho contra, mas tenho contra o facto de às vezes ainda não me compreenderem, pelos menos os que passaram por mim - falo das mulheres. É que ainda prezo muito o meu mui vagar de fazer tudo sem pressas e sem dores. Se tivesse muito dinheiro, deixaria de ver as coisas que hoje vejo, e isso é que é verdade. É que eu preciso de muito pouco para viver, só preciso de comer.
A inveja, a frustração, o egoísmo, etc e tal, tornam-se cada vez mais, valores fundamentais da sociedade. Os mídias vendem, “ad nauseam”, a imagem de gente bem-sucedida, vidas paradisíacas, tudo apenas pela obtenção dos produtos “x”, da viatura “y”, da casa Alfa. A publicidade é agressiva a olhos vistos. Vêem-se raparigas/rapazes de 13/14 anos a passarem-se por mulheres/homens, fazendo-nos crer que se utilizarmos os produtos “xpto”, ficamos iguais; bonitos, jovens e felizes para sempre. A maioria das gentes, “lá no fundo”, acredita e constroem a esperança em espuma de vento.

Não sei se as minhas opções foram as melhores, mas pelo tempo que já passou, concluo que a maioria foi boa, outras, talvez menos boas, e nem por isso deixei de ser quem sou. A única coisa que consigo ver daqui é o facto de, para termos algumas coisas mais na vida, não chega sermos honestos – é um facto. Os que mais adquirem resultados materiais, são os que mais baixam a cabeça em vénias absolutamente ridículas, e para estarem bem, só precisam de encontrar uma companheira que pense no mesmo jogo. Porque nunca joguei, estou só.

(..15Dez’08) (2)

3 comentários:

Anónimo disse...

Infelizmente todos de alguma maneira aprendemos que a honestidade nao leva a lado algum, muito menos ainda com as amizades, mas isso tu já sabes. Onde andam os teus amigos e as amigas? Todos os dias aprendemos. Mais vale só de que mal....... Beijos e Boas Festas para ti.

Anónimo disse...

Tuuuuu... ai ai.. és descarado, por isso gosto de ti. eheheh alexa

Eu... Maria disse...

Não me lembro como nem porquê entrei neste espaço pela primeira vez. Uma certeza tenho: gostei do que li, talvez me tenha identificado, de algum modo, com a forma de escrita que encontrei, talvez algum tema me tenha despertado a curiosidade de continuar a ler, talvez... não sei, mas se destaquei este blogue fi-lo, de certeza, por agrado.

Hoje, sei perfeitamente porque voltei. Trago comigo um pedido de desculpas. Não quis ser indelicada, mas pensei tratar-se de alguém que me tem vindo a incomodar. Agora sei que não é e quero redimir-me. Espero que o meu pedido de desculpas seja aceite.

Li mais um pouco e... vi-me confrontada com uma designação que, de certo modo, se aplica ao meu modo de estar na vida, mesmo sem o saber, para desagrado de algumas pessoas que me são próximas. Lamento. Por eles, não por mim.
Acho que não vou conseguir convertê-los, nunca aceitarão fazer parte desta espécie em vias de extinção. Serem downshifters? Nunca!!! E até os entendo. Ser diferente da maioria implica descriminação o que não me incomoda nada. Sei que faço parte de uma comunidade, mas não perco a minha individualidade por ideais que não partilho.

Um beijinho e votos de um Bom Ano.

Maria José