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terça-feira, 1 de junho de 2010

Tempos.

História: Uma fábrica centenária, tipo familiar a, Fios e Cabos Nova Inglaterra, está a perder valor na bolsa. Os seus accionistas são os principais perdedores. Em Wall Street, Lawrence Garfield, Presidente do Conselho da Garfield Investimentos – e também accionista da dita, só vê dinheiro – é o seu único trabalho e proveito.
A olhos vistos o valor das acções evola-se todos os dias e numa última tentativa, o administrador centenário actual, convoca uma assembleia com todos os accionistas para salvar a continuação ou não da sua fábrica familiar.
Na assembleia de accionistas para a votação do "sim", ou "não", à continuação da fábrica, só foram proferidos dois discursos. Reporto para reflexão de todos.


1 - Coração (*)
Presidente do Conselho de Administração da Fios e Cabos - Nova Inglaterra, Sr. Andrew Jorgenson.

É muito bom ver tantos rostos familiares, tantos velhos amigos. Alguns de vocês não tenho visto há anos. Obrigado por terem vindo. Bill Coles, nosso presidente, mostrou-lhes no relatório anual, aquilo que realizámos, aquilo que precisamos de melhorar, os nossos objectivos para o próximo ano e anos seguintes.
Gostaria de lhes falar de outra coisa. Quero partilhar convosco algumas ideias acerca da votação que vão fazer na companhia de que são accionistas.
Esta orgulhosa empresa que, sobreviveu à morte de seu fundador, às numerosas recessões, uma grande depressão e duas Guerras Mundiais, corre perigo iminente de se auto-destruição, hoje mesmo, e na cidade que a viu nascer.
Aquele senhor ali sentado (aponta para o Sr. Garfield) é, o instrumento da nossa destruição.
Quero que o observem em toda a sua glória. "Larry O Liquidador." O típico empresário da América pós-industrial que faz de Deus com o dinheiro de outras pessoas.
Os tubarões de antigamente, pelo menos, deixavam algo tangível na sua esteira. Uma mina de carvão. Um caminho-de-ferro. Bancos. Este homem não deixa nada. Não cria nada. Não constrói nada. Não dirige nada. E atrás dele, só deixa um rasto de papel a cobrir o sofrimento - suavizar a dor.
Ah, se ele dissesse: "Sei gerir o vosso negócio melhor do que vocês", valeria a pena discutir o assunto, mas ele não disse isso. Ele diz: "Vou mata-los!” porque neste momento valem mais mortos do que vivos."
Bem, talvez isso seja verdade, mas também é verdade que um dia esta indústria volte a renascer. Um dia, quando o iéne for mais fraco e o dólar mais forte, ou quando finalmente começarmos a reconstruir as nossas estradas, as nossas pontes, as infra-estruturas do nosso país, a procura crescerá em flecha. E, quando isso acontecer, ainda aqui estaremos. Mais fortes, devido às provocações. Mais fortes, por termos sobrevivido. E o preço das nossas acções, fará ridícula a oferta actual.
Deus nos salve se votarmos para recebermos uns míseros de dólares e fugirmos. Deus proteja este país, se essa for realmente a onda do futuro - presente. Passaremos a ser uma nação que apenas faz hamburgers, que apenas cria advogados e, não vende nada além de seguros de protecção fiscal. E se chegamos no ponto onde devemos matar algo só porque na altura vale mais morta do que viva.. Bom, olhem à vossa volta, olhem para o vosso vizinho de lado.. Olhem para o vosso vizinho. Não vão matá-lo, pois não? Claro que não. A isso chama-se homicídio e é ilegal.
Também isto é um homicídio. Em larga escala. Mas em Wall Street chamam-lhe “maximizar o valor do accionista” e dizem que é legal. E põem notas de dólar onde deviam ter uma consciência. Porra!
Uma empresa vale mais do que o preço das suas acções. É o lugar onde ganhamos a vida, onde fizemos os amigos, onde sonhamos os nossos sonhos. É, literalmente, o tecido que liga a nossa sociedade entre si.
Por isso, vamos agora nesta assembleia, dizer a todos os Garfield da terra: “aqui construímos coisas, não as destruímos. Aqui não nos preocupamos apenas com o preço das nossas acções. Aqui.. preocupamo-nos com as pessoas.
Obrigado.


2 - Razão (*)
Presidente do Conselho da Garfield Investimentos, Sr. Lawrence Garfield.

Amém
E amém. E amém.
Terão de me perdoar, não estou a par dos hábitos locais, mas na minha terra dizemos sempre Amem depois de uma oração. Porque foi aquilo que ouvimos. Um pregador a orar.
De onde venho, este pregador é chamado de pregador pelos mortos. Vocês acabaram de ouvir a “oração dos defuntos”, caros accionistas, e não disseram Ámen.
Esta empresa está morta. Eu não a matei. Não me culpem. Já estava morta quando aqui cheguei. É demasiado tarde para orações. Porque mesmo que a oração fosse ouvida e se ocorresse um milagre, e o iéne fizesse isso e o dólar fizesse aquilo e as infra-estruturas não sei o quê, ela continua morta. Sabem porquê?
Fibra Óptica.
Novas tecnologias.
Obsoletismo.
Estamos mortos, tudo bem. Mas não estamos falidos. E sabem qual a maneira mais certa de ir à falência? Aumentar a participação, continuar a comprar acções de um mercado em recessão. Devagar, mas garantido.
Vocês sabem, houve um tempo em que havia dezenas de empresas que faziam chibatas - rédeas para carruagens. E posso apostar que a última empresa a desaparecer, foi a que fazia as melhores chibatas. E agora, como é que vocês se sentiam em ser accionista dessa empresa?
Investiram num negócio, e esse negócio, está morto.
Vamos ter a inteligência, vamos ter a decência, de assinar a certidão de óbito. receber o seguro e investir o dinheiro em algo com futuro.
Ah.. "Mas nós não podemos", diz o pregador na oração. “Não podemos, porque temos uma responsabilidade com os nossos empregados, com a nossa comunidade. O que será deles?”
Tenho três palavras para isto:
Quem se importa?
Importarmo-nos com eles?
Por quê?
Eles nunca se preocuparam connosco. Sugaram-nos até secar! Não têm responsabilidades para com eles.
Nos últimos dez anos, esta empresa sugou-lhes dinheiro.
A comunidade alguma vez disse: "Sabemos que os tempos estão difíceis, vamos baixar os impostos da água e dos esgotos"?
Vejam. Pagam o dobro do que pagavam há dez anos. E os empregados dedicados que há três anos não são aumentados recebem o dobro do que recebiam há dez anos. E as nossas acções valem 1/6 do que valiam há dez anos.
Quem se importa?
Eu digo-lhes. Eu.
Não sou o vosso melhor amigo. Sou o vosso único amigo.
Não faço nada? Faço-lhes ganhar dinheiro. A menos que esqueçamos os motivos que vos levaram a investir. Queriam ganhar dinheiro.
Pouco importa se fabricam cabos, galinha frita ou tangerinas. Querem ganhar dinheiro.
Sou o único amigo que têm. Vou fazê-los ganhar dinheiro.
Peguem no dinheiro. Invistam-no noutro lado. Talvez... Talvez tenham sorte e ele seja usado de forma produtiva. Assim sendo, criarão postos de trabalho e prestarão um serviço à economia e, Deus nos proíba, até termos algum lucro para nós. E se vos pedirem para contribuírem, digam que já deram na fábrica. E, já agora, agrada-me ser conhecido por Larry, o Liquidador. Sabem porquê, caros accionista? Porque no meu enterro sairão com um sorriso nos lábios e uns trocos no bolso. E um enterro digno de se ter.
Obrigado.


(.. 01 Jun'10)

Nota. Escrito por Jerry Sterner em Other People's Money – 1991, obra teatral, que foi ao cinema no filme O Liquidador em 1999.
(*) Nota pessoal.