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domingo, 5 de fevereiro de 2006

Amigo, penso em ti. (2)

Os amigos, alguns, dizem-me que devo esquecer as coisas ruins. Também me dizem para esquecer, quem nos fez algum mal. Ainda dizem, para esquecer o amor que em certa altura da nossa vida (como eu digo tantas vezes), nos deu com os pés.
Não quero falar de amores que foram, não me apetece.
Deixem-me responder ao caso do amigo que me deixou.
Ele era a minha estrutura emocional, companheiro dos bons e dos muitos maus momentos. Ele estava em todas as ocasiões que o meu coração decidia estar na merda.
Ele era o meu melhor amigo e sinto terrivelmente a falta dele.
Também sei que não voltarei a vê-lo nunca mais. Esforço-me tanto para perceber o que isso significa, o porque me deixou, que às vezes desejo nunca mais acor
dar.
A última coisa que preciso é que me digam o que sentir ou como sentir.
Raiva? Sim.
Culpa? Não sei.
Mas não preciso que analisem os meus comportamentos para mo dizerem. Estou farto de ouvir, faz isto, faz aquilo. Cansado de análises e de palavras futuras que para mim são ocas e a maioria não tem sentido nenhum.
Se estou com raiva, continuarei a ter as minhas raivas. Se estou aborrecido, continuarei a estar aborrecido.
Absolutamente sereno para não desejar mal algum a quem quer que seja. Mas, deixem de fazer juízos de valores se nada sabem, se nada conhecem de mim. Pior são os juízos de quem não me conhece, nunca viu, nunca me tocou ou nunca me olhou. Existem os que me viram um pouco, num dia qualquer que atrevem a maiores juízos de erros do que outros, que habitam todos os dias no meu dia a dia.
O meu amigo não morreu junto de mim nos tantos dias que lhe ofereci, como companhia em oito meses. Não! Ele deixou-se ir no dia do meu descanso, e num qualquer dia que eu me obrigava a dizer que não à ida ao hospital, para obrigar outros (família) a estar com ele.
Faleceu quando não estava com ele e nesse dia voltei para junto do seu cadáver.
Não sei como foi que ele foi. Como teve a coragem de me deixar no dia do meu descanso. Cobarde? Nunca senti isso. Ainda acho, que não queria fazer-me doer, e não me queria olhar-me, para não me ver triste como eu sempre estava antes da sua doença aparecer.
Eu sei que ele lutou muito contra a sua dor. Eu, e só eu sei, ele também soube, o que nós sentimos naqueles tantos dias e tão longos.
Deixar-me num dia em que não estava presente, foi muito mau.
Acho que se aproveitou da minha ausência, com dor de mim.
Ainda vamos ao Brasil em Dezembro, dizia eu tantas vezes a ele quando, estava mais lá, do que cá. Seus olhos húmidos, diziam sempre que sim. O sorriso desaparecera à muito dos seus lábios. Olhava-o, e sentia sempre o seu sorriso, nos seus olhos húmidos dentro.
No momento da sua morte em que, talvez, se sinta tudo a ir, que imagem, que pensar, ele viu?
Imagem dos tempos que sorriamos de peitos abertos? Imagens da contagem dos amigos de outrora que nunca apareceram? Imagem… Ele não está! Vou agora mas... Quem vai cuidar de ti, Jorge? Cuida-te, eu já não aguento estar aqui mais tempo. Ou a imagem dum mundo caótico?
Não o saber, persegue-me.

'Preciso de ajuda' (.. 05Fev'06)

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