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sábado, 4 de fevereiro de 2006

Amigo, penso em ti.

Naquele dia pensei no meu amigo a contar os dias e no que significava para ele o tempo. Hoje sei, que só eu e ele falávamos de morte.
Eu não lhe era familiar, fui simplesmente honrado com a amizade que ele me ofereceu enquanto pode.
Desde o tempo que viveu a luta pela sua vida, uma coisa eu aprendi: Eu vivia no tempo e não era o tempo que me escravizava.
Deixei de correr desde esse tempo. Não trabalhei mais do que a normalidade, trabalhei o justo que me compensavam no final de cada mês. Deixei de olhar as horas. Contrario o mais que posso os dias que me chegam. Sou fazedor de coisas simples mas agora com melhor velocidade. Vejo o nascer e o pôr-do-sol sempre que me quero cuidar. Sem prazos diários a cumprir, tenho muito tempo livre, todo o tempo do mundo e mais algum tempo que roubei no tempo. Resolvi olhar os meus silêncios e olhar os meus pensares sobre a morte.
Trabalho e mais trabalho… Dinheiro e mais dinheiro… Ambição e ambições.
Enterramo-nos nestas coisas, mas nunca paramos para perguntar:
“É mesmo isto que eu quero?”
A menos que alguém nos ensine, todos precisamos de professores.

Lembro-me de oito meses de solidão e de enorme dor, eu e ele.
O meu amigo sempre foi mais estável do que eu. Eu sempre fui um irreverente, nato. Ele, tinha esposa, dois filhos fantásticos e um neto, super. Se pensar mais, ele tinha tudo o que eu nunca tive.
Encantava-me a nossa relação, também com todos os seus familiares. Houve momentos (quase todos) em que eu sentia-me um irmão mais novo, reconhecia-o na sua família e partilhámos todos, grandes bons momentos.
A doença veio predizer a sua morte prematura e eu desci há terra.
Oito meses de consultas, exames e tratamentos, para esconder, melhor, esconderem e atrasar o destino já prescrito.
Sabíamos, falávamos, a morte estava ali e poucos meses restavam.
Três meses antes, falávamos da morte um com o outro. A dor, para os dois, era inevitável.
É uma doença que luta com armas desiguais. Lembro-me do início da queda do cabelo dele, tinha vergonha de sair há rua. Num ápice fui, há rua e rapei o meu já longo cabelo. Surpreso e com os olhos húmidos, saiu há rua para bebermos o nosso café habitual.
Nunca mais foi o mesmo. A partir desse dia, passou a olhar todas as pessoas de maneira desigual e nunca em qualquer outro dia as definia do mesmo modo.
Sentia uma enorme raiva, a vida não estava a ser justa. Em muitas gentes que outrora sorria, via maus encantos, sofria, sorria e ninguém parava para o compreender. O cabelo que outrora mostrava com grande orgulho, hoje era um sinal "de marca" que estava realmente doente aos olhos do mundo. Não podia esconder. Os amigos sabiam, os conhecidos duvidavam, agora mesmo os desconhecidos, todos sabiam, sem autorização, sem agravo, sem pedir coisa alguma. A privacidade e a sua dor foram dadas de bandeja.
Eu estive em todos os momentos que ele viveu nos últimos oito meses desde que a morte se instalou, e apesar de uma numerosa família, eu vivi, nós vivemos (eu e ele), os piores dias sozinhos em salas de cheiros de morte, consultas retardadas, tratamentos dolorosos.
A família, apareceu com mais assiduidade nos últimos vinte e cinco dias da sua vida, já quando pela sua debilitação, teve que ser internado até aos seus últimos dias.
Só eu e ele falávamos da morte e o que seria.
A morte levou-o. Hoje sinto que parte dos meus sonhos, talvez a minha estrutura emocional morreu com ele.
Não sou o mesmo. Deixei de acreditar e ainda hoje nada me leva a pensar que o dia de amanha, seja melhor do que o dia de hoje.
O meu melhor amigo morreu.
Faz tempo, não assim tanto, mas sei que me modificou para sempre a minha relação com a maioria das pessoas. Vivo com raivas da postura de gentes que em qualquer altura deixam de ser a mascara de sorrisos para se encontrarem na mascara do completo desprendimento.
(O meu amigo trabalhava na mesma empresa onde trabalho. Logo vivo coisas, que não mereço viver)
Parte de mim não existe e o que sinto que vive, vive de desonestidade, só assim sei que consigo viver mais alguns dias.
Os meus sorrisos são dispersos nas mascaras do meu dia a dia. Se me esquecer que existo, ninguém pode dizer, os que me olham, que eu não sou quem sou, porque eu sou um homem que morre de saudades de ter ficado neste mundo sem o meu amigo. Sou uma mascara triste, porque tenho muita falta dele.
Hoje no tempo, sinto que a morte me modificou para pior. Os dias são o que eu quero que sejam, logo não quero acreditar nem pensar no amanha. As vontades não me motivam, deviam ser conseguidas pelo sonho do sentir-me melhor, sabendo que aquele está melhor do que eu, e assim, ninguém existe com vontade de me provar que os dias de amanhã serão melhores.

Amigo, penso em ti. Dei-te há terra, e quem me dará a mim?
(MS, faleceu em: Abril de 2003).

'Preciso de ajuda' (.. 04Fev'06)

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