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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Metafísica do Amor

“Não conto com o elogio dos amorosos. A esses o meu ponto de vista parecerá demasiado físico e material, por muito metafísico e transcendente que ele seja. Que eles possam notar, antes de me julgarem, que o objecto do seu amor, que hoje exaltam em madrigais e sonetos, mal obteria deles um olhar, se tivesse nascido dezoito anos mais cedo.”


“.. Para atingir o seu fim, é necessário, portanto, que a natureza engane o indivíduo com alguma ilusão, em virtude da qual ele veja a própria felicidade no que não é, realmente, senão o bem da espécie; o indivíduo torna-se assim o escravo inconsciente da natureza, no momento em que julga obedecer apenas aos seus desejos. Uma pura quimera, que logo se desvanece, paira-lhe diante dos olhos e fá-lo agir.
Esta ilusão não é mais do que o instinto.
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Não há, pois, homem nenhum que primeiro não deseje ardentemente e não prefira as criaturas mais belas, porque realizam o tipo mais puro da espécie; depois procurará principalmente as qualidades que lhe faltam, ou, por vezes, as imperfeições opostas àquelas que ele próprio tem e achá-las-á belas: daí resulta, por exemplo, que as mulheres altas agradam aos homens baixos, e que os loiros gostam das morenas, etc. O entusiasmo vertiginoso que se apodera do homem à vista de uma mulher cuja beleza corresponde ao seu ideal, e faz brilhar a seus olhos a miragem da felicidade suprema se conseguir unir-se-lhe, não é outra coisa senão o sentido da espécie que reconhece o seu cunho mais atraente e que por ele gostaria de se perpetuar.
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Por isso neste instinto, como em todos os outros, a verdade reveste-se de ilusão para actuar sobre a vontade.
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É uma ilusão de voluptuosidade que faz brilhar aos olhos do homem a imagem falaz de uma felicidade soberana nos braços da formosura que a seu ver nenhuma outra criatura humana iguala; a ilusão ainda, quando supõe que a posse de um único ser no mundo lhe assegura uma felicidade sem medida e sem limites.
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Tanto é esse o carácter do instinto – proceder em vista de um fim de que aliás não tem ideia – que o homem, levado pela ilusão que empolga, sente algumas vezes horror pelo fim a que é conduzido, que é a procriação dos seres; desejaria mesmo opor-se-lhe; é o caso de quase todos os amores fora do casamento.
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Satisfeita a paixão, todo o amante experimenta uma estranha decepção; admira-se de que o objecto de tantos desejos apaixonados só lhe proporcione um prazer efémero, seguido de um rápido desencanto. Esse é, de facto, em comparação com os outros desejos que agitam o coração do homem, como a espécie é para o indivíduo, como o infinito é para o finito..”

Schopenhauer (1788-1860)


(.. 28Nov’08)

Nota: Metafísica do Amor de Schopenhauer, é um livro que guardo faz muitos anos. De vez em vez leio, raciocino sobre ele e dou comigo a olhar as coisas que me envolvem. Não sabendo "nada" destas coisas do amor, vejo-me demasiadas vezes a pensar sobre as suas ideias “caturras” – dizem, mas para mim e sobre as suas palavras, não é raro, não concordar.
As ideias do filósofo nesta matéria são hoje inaceitáveis, caturras, mas o que me interessa saber é como se pensava na primeira metade do século XIX. Quase concordo com ele e não vejo mal nenhum – porque fui ensinado de outro modo. O amor é tudo o que agora se diz “prá'i” aos céus; tudo é amor; poucos ousam estudar as causas em modos de razão e frieza. Todos cremos e queremos que o amor seja tudo o que é bom e de mais sublime dos nossos sentimentos. Será?
Jesus, disse: amor é caridade.

4 comentários:

Anónimo disse...

Amor é caridade... E o que é caridade?

Amor, é algo tão maravilhoso e tão insuportável de sentir, por abraçar a dor rendendo-se perante o seu cheiro roseiral embrulhado num manto de espinhos... que é impossivel definir tal sentimento louco de sacrificios e beleza... Infinito sei que é... Eterno, também, quando é simplesmente complicado e verdadeiro!...

M.P

Anónimo disse...

Estás em grande forma meu amigo. Beijo

Anónimo disse...

As coisas que tu lês :) É JUSTO e tu és um tolo querido. Gostei de rever a tua escrita, talvez o amor seja instinto, razão de gostarmos. Não somos animais e até viemos do mar? rsrsrs
Beijinho. :)
Alexa

Anónimo disse...

Achei-te e perdi-me aqui a ler-te. Que dizer? Provavelmente herdaste um talento singular. Afinal nem só de arte vivias. De louco nada tens e de louco talvez um pouco, lembras-te? Admirei-me pela tua escrita e por este lugar que escondeste, desconhecia em ti tal talento. Percebo-te agora mais, antes nem percebia que eras tanto. Foste sempre a irreverência singular, o desejo de muitos, a inteligência certa e silenciosa. Admirei-te e ainda te admiro, não só eu, como sabes. Guardarei a referência do lugar. Beijo e felicidades desta tua amiga ex-colega que nunca percebeu que o silêncio que emanavas eram protectores dos teus mais.
ex