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quarta-feira, 5 de outubro de 2005

A pedra.

Um dia resolvi guardar uma pedra linda que tinha apanhado na grande praia, que fica perto da barraca onde vivo. A pedra era linda pela polidez e rubor que apresentava. Não tenho o hábito de apanhar pedras nem conchas na praia, outros tempos sim, ainda andava de calções e todos os meus amigos miúdos como eu de calções, apanhávamos tudo o que fosse desigual do nosso dia a dia. Talvez conseguíssemos um tesouro, sei lá, um dia… Mas não me lembro onde guardei tantas coisas que sei, que apanhei nessa altura.
Hoje, olho a pedra que brilha. Quando a olho, sentimentos me fazem transpirar, sonhar mesmo com coisas que nem eu sei se jamais terei direito a usufruir. Pergunto eu, tantas vezes a mim mesmo: Que valores me adiciona à minha existência? Saúde, felicidade, bem-estar, amor, conforto, vigores sejam eles quais forem, euros, sorrisos?
Não obtive resposta. Claro! Uma pedra não fala, mas esta, acredito, sempre me falou.
Foi hoje que senti isso. Estranho! Saí de casa bem cedo, pelas oito e meia da manhã e tive pela primeira vez a sensação que alguém me chamava “leva-me, contigo hoje” - sei que ouvi. Entrei na sala da minha barraca, rodopiei vagarosamente e parei o meu olhar na mesma.
De novo estranhei, porque parei a olhar naquela pedra que ali estava como enfeite, num móvel barato e gasto? Não sei, mas levei-a comigo.
Fui ao café da manha, rito habitual. Li os jornais. Bons dias a quem chegava e fumei o meu primeiro cigarro. Olhei mais uma vez para a parede que já conhecia o meu olhar.
Paguei e saí. Até logo disse eu, aquém me ouviu.
Entrei no meu carro barato e me reconfortei. O meu carro é como eu, trabalhamos devagar, de preferência se pudesse-mos, nada faríamos, e em marcha seguimos para a minha grande praia.
Poucos minutos tinham passado e eu já via no horizonte o mar, a minha perdição, tudo numa combinação perfeita da minha vida. Mar, areia e céu.
Como hábito, gosto de ouvir falar o mar, sorrio. Cheguei, estacionei, troquei de calções, vesti um blusão de algodão com capuz e fiz-me ao caminho. Gosto de fazer caminhadas pela beira da praia, outras vezes mesmo na areia quando o mar não está comigo, está revoltado com algo de natural.

Objectivo: andar uma hora na beira do mar, com a água ao nível dos joelhos.

De vez em vez, consigo olhar o horizonte. De vez enquanto consigo ver alguns indivíduos a passar-me ao lado. Noutros olhares, vejo indivíduos a sentirem o Sol a colorir-lhes a pele.
Mas o tempo é exclusivamente para mim. Tempo de reflexão, tempo de crispação, o tempo é só meu.
As coisas menos boas da vida do meu dia a dia são ali despejadas sem mágoas e sem retaliações.
O mar nunca me diz coisas nefastas. O mar nunca me diz os meus defeitos. O mar sempre conseguiu que, eu visse a vida de uma maneira mais praticável, por essa razão, eu estava ali mais uma vez e outra vez virão outros encontros.
E assim lá ia eu deslizando pelo mar e o tempo a suceder.
As coisas que nos passam pela cabeça naquele momento penso eu, é como se a nossa vida estivesse no fim. A reflexão é fantástica e as soluções de um fascínio que não é possível noutro lugar qualquer. A meditação é executada na mestria.
A certo momento olho com um melhor contemplar e melhor fascínio uma pedra polida de cores mais preferíveis do que, a que eu tinha em casa, há muito tempo.

Olhei-a. Admito, namorei-a e contemplei-a.

O mar enrolou-a com ajuda da areia. Fiquei bravo. Tentei apanha-la, e o mar de novo a removeu. Estranhei. Olhando-a, fiquei imóvel e pensei.
Porque quero outra se já tenho uma tão linda ou mais?
Se o mar não me facilita na sua oferta é porque quer dizer-me algo! Estranho, hoje que não estou para ouvi-lo!

Numa fracção de segundo, baixei-me e apanhei a pedra que rolava para cima e para baixo ao sabor das ondas que me zangavam.
Dei meia volta ao olhar para o cronómetro, passavam trinta e oito minutos desde o início da minha caminhada. Estava distraído, outro dia qualquer, eu, ao minuto trinta, estava de regresso.
Com a pedra na mão, olhei e verifiquei todas as suas virtudes e as boas qualidades, tentando encontrar mais defeitos do que a outra que eu já conhecia. Tentava encontrar razões para não a levar comigo. Tentava encontrar pretextos para a deixar ali, e porque não troca-la?
Mas não, nenhuma imperfeição naquele momento e com a sensibilidade gritante que sentia chegava para deixar ali aquela pedra.

Cheguei ao carro, troquei de roupa olhando agora as duas pedras que as tinha juntado.
Tinha de novo vontade de fumar um cigarro. Fumei.
E se fez luz! De repente, olhei a pedra nova e com saudade a pedra velha as arremessei para longe, sempre no meu horizonte, e me sentei confortavelmente no meu carro a olhá-las.
A praia, já estava composta de muita gente pela hora que fazia. Os carros, uns para um lado, outros para outro sentido, passavam.
E o tempo passava.
Passaram quase duas horas lia e olhava as pedras lindas, lá no fundo do mundo, mais perto de gentes do que eu estava perto delas, mas ninguém se aproximou para as apanhar e as que passavam não as viam, as que viam não as olhavam.
Uma criança passou e viu, reparou, em algo. Fez o esboço de apanha-la, mas a senhora adulta gritou-lhe, “não mexas nisso que está no chão, é porcaria!” e a criança, continuou.
E eu ali fiquei sozinho a decidir o que deve fazer um indivíduo adulto.

Cheguei a casa, tomei banho, aprontei-me e foi almoçar fora.
O tempo passou. Os dias passaram e hoje olho o móvel barato que noutro tempo, tinha um enfeite… Uma bonita e colorida pedra do mar que um dia quis que fosse só minha, como quando era criança.
Simplesmente, simples.

(.. 05Out'05)

Nota 1: Em Portugal, é feriado. Aniversário: Fim da Monarquia e a entrada para a República.
Nota 2: FANTÁSTICO! Quando se treina o corpo e o espírito a não criar laços, é muito mais fácil de viver. Ascende-se a uma espécie de levitação, melhor dizendo, vida mais fácil.

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