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domingo, 1 de abril de 2007

Apetece-me telefonar.

Já ouve tempo em que julguei salvar o mundo. Era outro eu. Ainda não sei se me vale alguma coisa lembrar-me desses sonhos.
Apetece-me escrevinhar alguns pensamentos que outrora escrevi. Hoje apetece-me, porque não me apetecem outras coisas.
O exercício das palavras é nobre, faz-me pensar, afaga-me os espíritos, os vulgares, porque gosto dos espíritos amadurecidos, os verdadeiros.
Digo tudo o que me vem ao coração. Não minto, tanto quanto me é possível dominar as palavras de ontem, hoje. Não vale a pena mentir porque o mundo é, de igual modo, inclemente.

Mentir, nunca ganhei nada, lembro-me, quando era mais velho, noutros tempos, mentia a todas as raparigas. Gostava de lhes dizer, a todas, que as amava. Iam ser, todas elas; a mulher da minha vida – uma de cada vez. Sei lá eu porque gostava delas todas? Gostava de estar com elas. Não para brincar aos médicos, hoje percebo, gostava de sentir aqueles aromas que transbordavam das suas peles.
Lembro-me! O grupo que eu chefiava naquele tempo, tudo rapazes com virtudes parecidas com as minhas, até os sonhos eram semelhantes, deleitávamo-nos, quando nos juntávamos para contarmos uns aos outros, qual era a rapariga que gostávamos.
Lembro-me. Nunca namorávamos, nenhuma rapariga que fosse “pertença” de alguém do grupo.

Lembro-me. Fazíamos guerras com pedras, paus e outros artefactos naturais, contra os grupos rivais que se metessem com raparigas que estivesse aos cuidados de algum do grupo. Na guerra, se fosse possível, geralmente era conseguido, raptávamos outras raparigas para o nosso pequeno grupo. Tínhamos muitas vitórias.
Lembro-me. Éramos mais raparigas do que rapazes. Os outros, chamavam às que escolhiam o nosso grupo, “Maria-Rapaz”. Mas elas não se importavam. Gostavam mais do nosso grupo. Éramos os mais irreverentes. Não descansávamos um minuto, sem realizarmos muitas patifarias, ás vezes eram tantas que não sabíamos quem fez o quê ou se tínhamos feito muitos, quiçá, poucos era terrivelmente “desabonatório” para o ego do grupo. Não vivíamos a responsabilidade. As patifarias eram todas naturais. Como a areia no mar. Coisas da idade. Quando eu era mais velho, lembro-me.
Lembro-me da melhor especialidade do meu grupo. Defendíamos a beleza. Não importava o formato, os contornos, nem qualquer cor; dos olhos, do cabelo ou da pele. Lembro-me.

Hoje, sei que é difícil entender o meu vício, a beleza e ou aroma. Só e unicamente a beleza, aroma.
Agora, que desisti de me encontrar, dou-me melhor comigo. Não espero que gostem de mim. Quando gostavam de mim era de outra coisa da qual gostavam.
Foi o que sempre aconteceu. Foi isso que sempre me ferio cá dentro. Ainda custa às vezes, porque sei que estou a fugir e que isso é sempre vão.
Era outro eu. Não vale de nada lembrar-me, só quis hoje lembrar-me mais um bocadinho, quando eu era mais afoito. Quando os calções eram moda e eu gostava de mostrar as minhas pernas, diga-se. As minhas amigas gostavam de brincar já nessa altura, com os poucos pelos que me observavam.

Acordo a poente. Apetece-me telefonar. Esquecer-me de mim.

(.. 01Ab’07)

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