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domingo, 29 de abril de 2007

O vício da beleza da alma.

Mentiria se escrevesse que não tenho qualquer amiga. Mentiria se escrevesse que não gosto de nenhuma. De uma forma generalizada, gosto de mentir. As razões são muito minhas. São muitas amigas. Podia dizer, seria um homem menos modesto, que amo todas as minhas amigas. Mentia. E quando não minto sinto-me impotente para dizer seja o que for. Gosto do meu silencio. Deixa-me falar verdade. Falo bastas vezes comigo. Compreendo-me bem, mesmo que diga outras tantas vezes que não concordo com as razões que me advêm da educação que me impuseram. Cresço nos anos, acreditando que as coisas que nascem no coração deviam ser vividas. Mas não é assim. É muito complicado e as outras pessoas também ajudam a complicar o que eu já complico.
Bastaria alguém dizer-me. Quero-te! Anda para mim!
Eu sei que aceitava. Eu sei que o meu coração compreenderia. Menos eu que continuo a viver de razões aborrecidas.
A minha luta de sobrevivência não é de coração. A minha luta de vida é de equilíbrios. Não encontro. Tudo me parece impossível. Todos querem mais do que podem dar a alguém.
Não consigo perceber como se pode pedir se não se consegue dar um pouco de alma. Como consumir um corpo se não conseguimos nem olhar? Como receber um abraço se nunca somos convidados a participar no dia que mais necessitamos desse alguém?
De momento conheci, sentindo alguém. Visualizei no sonho, os olhos mais tristes que jamais vira. Não queria sonhar mais. Tenho medo do abandono, quando alguém ainda sonha com os sonhos dos dias anteriores.
Penso sempre, eu sei. Um dia vou deixarei de pensar tanto. Mas ainda penso. Tenho o defeito de não conseguir uma erecção com uma rapariga que não conheço. E meia dúzia de sentires ou empatias, não me fazem sobreviver nesse gostar.
Preciso de estar apaixonado ou, pelo menos, julgar estar apaixonado. Não é o meu caso. Podemos falar, inquirir. Podemos, os dois até estar bem. Um aqui. Outro lá. Num lugar qualquer.
Chega de peneiras eruditas. Freud, o doido por coisas que hoje não acredito, faz-me pensar tantas vezes nos meus medos. Aceito uma dele. Os ansiosos crónicos como eu que têm medo do medo ficam sem ansiedade quando deparam com um verdadeiro perigo. Eu sei no tempo quantos medos eu tenho. Deve ser a única coisa acertada que ele inventou.
Muitas vezes, não sei quantas vezes, tenho vergonha de mim. Dos meus medos.
Queria eu só vê-la. Queria eu só olhar. Sentir aqueles olhos que sonho, muito tristes. Tão tristes que, me arrepia só de pensar no facto de todas as noites ela ainda sonhar com os dias que viveu, faz pouco tempo.
Não posso negar. Já fui assim. Contava o tempo pelos anos, meses, horas e minutos. Todos somos assim. Hoje conto o meu tempo pelas coisas boas que me fazem. Pelas coisas boas que vou aprendendo. Coisas boas todos os dias me chegam.
As promessas de amor cumprem-se tão dificilmente. Passados dias o desejo sufoca tudo em volta por inteiro, ouve-se a custo uma só respiração. É quando não existe mais ninguém no sonho que sonhámos.
O que devia ser agradável, inicia um tormento. Durante o dia o meu corpo prometia-me, em silêncio, prazeres que não se cumpriam. Sonhar, tem destas coisas. Zango-me muitas vezes com os meus sonhares. Porto-me como um homem, acho, vezes de mais, mas dói-me sempre e cada vez mais no coração. O estômago, agoniza-se, serve-se de mim, para me fazer sentir que eu sou mais um tolo que nasci.
Num dia destes, sem sonhar, masturbei-me diante do espelho, por cima do lavatório impecavelmente branco e liso. Depois, tudo continuou normal. Tão evidente. Só eu estou neste mundo bravo. É tão natural a masturbação que, chego a pensar se me masturbam ou se me masturbo. Fosse ela, eu seria sempre assim. Tocava-lhe na alma, sempre.
Queria no dia seguinte continuar a sonhar. Despiu o que eu não ousava, o calor por debaixo da pele. Continuei. Todos os dias continuam mesmo que eu chore no dia seguinte.
Amigas? Umas, gostei. Outra, nunca as quis, mesmo que abusassem de mim. Ainda buscava o medo e nunca sabia dele. Amei à minha maneira. Cada pessoa tem a sua maneira. É um direito. O amor à primeira vista foi sempre o melhor. Há quem não acredite, coitados. Não me arrependo. Dou-me logo todo. Não jogo e não negoceio. Digo tudo o que me vem ao coração. Nunca minto, tanto quanto me é possível dominar as palavras. Não vale a pena mentir, digo isto a tantas gentes, porque o mundo é, de igual modo, inclemente.
Sei que é difícil de me entenderem. Mais é, só entenderem o meu vício, a beleza. Só e unicamente a beleza. Não a física, essa é transparente no meu olhar, sim o vício da beleza da alma. Morro. O aroma faz-me entrar dentro. E nunca me apetece sair, do dentro..
Desisto bastas vezes de me encontrar, dou-me muito melhor comigo. Não espero que gostem de mim. Quando gostavam de mim, era de outra coisa que gostavam. Lembro-me. Sim. Repito-me muitas vezes. Gosto. Sou assim.
Penso sempre que, só eu é que salvo o mundo da minha apatia.


(.. 29Abr’07)

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