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sábado, 7 de abril de 2007

Guardadores de caixas.

Admiro o silêncio profundo das coisas. Guardo muitas lembranças. O silêncio revela exteriormente o que se transporta no coração. A partir de certa idade até o sexo se mostra previsível, logo desinteressante. Acontece a todos. Não a alguns. Sei.
O que mais me aflige é não saber para onde vai o tempo que se viveu. Muitas vezes resume-se a um instante. Talvez tudo se encontre guardado numa caixa perdida - imagino eu, para logo se destruir essa miragem. Sei. Existe gente que faz colecção de coisas em caixas. Nunca soube a razão. Acho, não quero saber. Quero saber só que eu não o faço. Não guardo nada.
Prefiro viver sempre as coisas boas de momento. Intensamente pela vida fora. Nada de guardar os momentos. Deixo partir todos os momentos fantásticos com aqueles que se vão. Se não ficam que os levem. Ofereço-lhes as coisas boas em caixas de papel.
Os melhores, são os de amanha. Nunca os que passaram.
Não guardo. Quero sempre o amanhã. Não conheço caixa alguma que caiba algum momento dos que sonho. Porque juntar as marés que passaram?
As caixas fazem-nos viver aos soluços. Fazem-nos passear pelos jardins os corpos que se perderam nas aragens. Foram bons. Ponto final. O amanhã é o mais importante da vida de cada um.

O génio distingue-se do ser inteligente porque o primeiro cria mundos e o segundo combina velozmente decisões, faz previsões calculadas. A maioria falta-lhe o génio, essa, a razão principal de tudo guardarem em caixas.
Vivem insatisfeitos, os guardadores de caixas. Coleccionam dias passados. A maioria com a garra de que se as perderem, a sua vida termina.
Essa perca constante de forças em guardar o impossível, resulta em perca de energias, coragens, para agarrarem o dia de amanhã.
Estranho este mundo que se agarra ao passado deixando morrer o futuro!
Lembro-me hoje de olhar a areia, de calcular o seu número, tão enorme como o das estrelas que furavam o céu da noite.
Muitas vezes, insisto em gravar a nostalgia. Mas não deixo de gostar no meu destino que tende a partir-se mar a dentro.

Gosto de pensar nas coisas da vida, aos pedaços. Tão só isso. Para tal, é preciso, creio eu, aproximarmo-nos do fundo de tudo, o que só se consegue quando nada se tem, nem nada se pode fazer.
Este pensamento só por si parece-me um sinal de que já estou a pensar como devia, porque, na verdade, a primeira coisa que se pode dizer sobre a nossa vida é que ela é um exagero, um excedente, uma coisa que podia muito bem não ser, que porventura nem devia ser de tão frágil que é.
Começar é um problema. Com isto comecei a pensar. Vamos sempre a tempo de recomeçar. O início de uma melhor vida é, acabarmos com as caixas das desilusões perdidas. Ou as caixas de dias passados, fossem bons, fossem menos bons.

O conseguirmos pensar, é uma sucessão de conteúdos, sim, feito de saltos, paragens súbitas, reviravoltas, recuos.
Não pretendo contar a minha nem qualquer história. A minha vida só tem de particular a de ser simplesmente simples, a minha.
As palavras são descontínuas, os pensamentos fluidos. É penosa e árdua a dificuldade em transpor para palavras aquilo que vou pensando.
É um sossego a vida sem qualquer caixa de areias, mares perdidos...
A vida está no equilíbrio das coisas. Nem tanto ao mar nem tanto há terra!

Como gosto de dizer, simplesmente simples: “Nem todos os sonhos se realizam, mas ainda bem que os tive.”

(.. 07Abr’07)

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