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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Acordar.

Qualquer movimento que faço no acordar pode abrir uma ferida. O melhor é acordar sempre muito devagar. Aproveitar os minutos que faltam para sentir o calor da cama. É que tenho em todos os acordares, muitas saudades do tempo que passou no início da minha grande paixão. Por isso, o melhor é acordar devagar. Não me mexo muito, não vá o calor que existe fugir depressa e não consiga reacender para que o dia seja além de real, aconchegante, reconfortador e merecedor. Seja qual for a dor do início do dia, sei que no outro dia, passará.
Posso a acordar de qualquer maneira, tanto faz, o final é sempre para o mesmo, acção para mexer qualquer parte do corpo e levantar-me. Nada mexe e eu não quero fazer nada para mexer. Não quero perder nada do que tenho.
No fundo, acordo sempre da mesma maneira de qualquer homem comum. Só não acho é justo, acordar da mesma forma dos outros. Mereço um acordar diferente, como quando acordava com a paixão a envolver-me e sentia o coração a despedir-se e a razão dissipava-se – queremos sempre assim.
Se houvesse um sentido lógico para me mexer, acordava como sempre fiz, sem a preocupação de inalar o aroma que hoje faz o meu sonho ser, esperança.
Antes de ser o homem que hoje sou, acordava de qualquer maneira. Não tinha aroma para tomar. Nem calor afectuoso que me pregassem na cama. Mexia-me muito depressa. Queria ir ao encontro do desconhecido mesmo que nesse dia não vislumbrasse nada de igual ao que sonhava. A esperança fervilhava no meu sangue, ainda. Foi à demasiado tempo que até parece que sonhei. Não gostava da vida que tinha, é um facto, só mesmo do trabalho, e esse, ainda sufoca, mas entretêm-se cada vez mais a esfumar-se nos dias, ainda bem, ainda bem para mim.
O tempo pára e depois arranca para voltar tudo ao mesmo – é o que sinto. Às vezes ao acordar, afundo-me na cama, nunca sei o que procuro, mas procuro. É dramático no início do dia saber que acordo com o aroma de quem tanto gosto e não conseguir domá-lo nas minhas mãos para que fique sempre comigo. Desejava que fosse um álibi para que as minhas desculpas e ou as minhas razões não fossem tomadas em conta. Queria tanto nunca ter "razão", é a deformação a envolver-me. É uma luta contra o sonho. Estou a crescer e não queria.
Ainda acordo muito devagar. Sou sempre vagaroso em tudo o que faço. O que é uma chatice quase sempre, pelo menos é o que os meus caminhos repisados mo proferem e eu não consigo deformar este aspecto - essa é que é essa.
O dia não pára e ainda não me apetece mexer. Principalmente hoje que me deleito no aroma que inspiro. Porquê hoje? Não sei, mas quero ter muitos amanheceres iguais. No entanto fecho-me em mim, com a certeza de que isto, como o resto, passa. É que a partir dos cinquenta, alguém me disse, já nada é natural, nem a dor nem o prazer. Não desejo assim.
Hoje prometo não tomar banho de manhã. É sempre o que faço. Levo-o sempre comigo no corpo e aguento-o tempo suficiente em mim, depois, noutro lugar, despego-me das coisas que me sufocam e deixo que outra água o leve e as leve, para um lugar estranho e mais distante ainda. É assim que faço quase todos os dias ao acordar com o aroma que acorda em mim.
Isto deve ser dor. Cansaço. Deformação. Agora enervo-me com razão. Deve ser irreversível este meu acordar. Vejo os dias tão previsíveis e isso é coisa que abomino e pensar na quantidade de água que me limpa a alma, traz-me agonia - é o que sinto. Podia sorve-la, ficaria limpa dentro de mim. Tenho de arribar, pular da cama. Desejar que o dia seja igual ao que almejo por completo. Acordar feliz como quando era um menino de paixão, num horizonte de razões comuns e algumas cumplicidades partilhadas em abraços desejados. Eu, que sou de fazer e viver as coisas vagarosamente e bem, abomino quando me sussurram: É demasiado tempo.

(..15Out’08) (3)

4 comentários:

Anónimo disse...

A RAZÃO É SOLUÇÃO PARA SE VIVER FELIZ,EM PAZ,E PARA SEMPRE. O CORAÇÃO NÃO TE LEVA A LADO NENHUM. VAI JÁ TOMAR BANHO…..EHEHEHEHBeijo

Anónimo disse...

Acho que viajo num oceano de ondas que se namoram equilibradamente...
Nem só a razão faz alguém feliz, nem só a emoção.
Nada é eterno, a não ser aquele sentimento verdadeiro, que nos sufoca por não ter vivência e/ou também a recordação daqueles aromas realmente tão distintos e tão iguais, unificando-se.
O coração nunca mente. Simplesmente sente...

Bom... quanto ao melhor que em mim entrou ao ler-te, foi que , nada dura demasiado tempo, mas sim o tempo suficiente para nos iluminar quanto a algo que possa perturbar os nossos sentires dentro e fora da cama, num amanhecer e num anoitecer...

Podemos mudar de perfumes, mas nunca podemos mudar a essência dos nossos aromas!

Abraço Jorge.

Anónimo disse...

Gostei de ler este blog. É diferente, é cheio de sentimento, fiquei tão nostálgica. Agradou-me a maneira de contar os seus sentimentos. Parabéns

Anónimo disse...

Felicidades e gostei muito de te ler. Beijinhos