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quarta-feira, 1 de março de 2006

Aceitar o amor.

É o mais correcto, não é?
Quando se trata da morte, cumprem-se as regras. O ritual é menos obscuro, mas igualmente previsivel. Somos positivos. Comportamo-nos assim. É o que esperam de mim, não é? Que suba ao púlpito diga algo com piada... algo irreverente, mas inspirador.
É assim que nos enganamos. Agimos como se fôssemos superiores à morte... mas não somos e deviamos admiti-lo.
Devíamos encará-la como é. Então talvez aprendamos a lidar com ela.
(Ele tinha muita vida, era alegre... mas já não está cá!)
Não vou ser engraçado, não vos quero fazer rir. Acabou-se. Quero fazer-vos pensar no que é importante. Pois embora isto seja inaceitável... e horrível, ainda há esperança.
Há esperança.
Ouvi uma música que foi composta... Foi composta no final de tudo. Nos últimos segundos de vida. Porem, existe algo para lá dessa tristeza... algo belo que nos toca... apesar deste horror.
(Não quero lembrar-me da última de Mozart, não quero, é vulgar, todos a ouvem sem nada sentirem. Premedito a escrita.)
O tipo que a compôs...engoliu os punhos e sentiu as entranhas contorcerem-se.
Porém, já no final... no meio de tanta dor, em que quase tudo parou... em que estamos prestes a desistir, ouvimos uma nota... que se impôe, e mais outra... um sussurro, um eco.
Irrompe de um grande silêncio... paira periclitante... e nós agarramo-nos a ela. Agarramo-nos a esse som...
Apesar de por um qualquer motivo, sentirmos que está no fim… Não queremos que aquele som acabe. Porquê?

É o seu amor.
Apesar de tudo, apesar do inevitável fim, da dor... o seu amor recusa-se, recusa-se a desaparecer.

Ele era boa pessoa (dizem, agora em qualquer igreja). Tinha uma vida, cheia (pensam, os mesmos). Viveu e agora está morto (que chatice, era muito simpático).

Mas... eu ouço-a. Ouçam. Conseguem ouvir?
Não morre. Isso não morre.
Enfrento qualquer filho da mãe que diga que morre!
Isso sobe aos céus, às estrelas...
Não procuro soluções fáceis. Não quero passar por cima de nada. Não berramos, não esperamos o suficiente. A questão é essa! Abdicamos do luto. Sentamo-nos impassíveis... controlados (na igreja, missa funebre), sem medo de nada. Devíamos temer, a morte!
Devíamos temer a morte!...

Não podemos limar as arestas da vida. Temos de a viver toda! Sorvê-la, como eles (os jovens que se vão) fazem!

Rodeiem-se de amor… verdadeiro, aquele único que faz sofrer... constrangedor e surpreendente. Quando chegar a nossa hora, a minha, a tua… tudo o que ouvirão... tudo o que ouvirão, será essa nota. Essa nota curta, tranquila... e provocadora, que se estende até ao nada.
Ouçam-na... Eu ouço.

(Penso.. 28Fev'06)

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