Era um homem quadrado. Ao nascer tinha a forma que todos os homens têm ao nascer. Corpo de interrogação. Mãos de agarrar o mundo e olhos de aprender.
Crescera e brincara como crescem e brincam as crianças que nascem do lado claro do mundo. Corpo redondo de beijos. Olhos e mãos de brincadeiras e boca de guloseimas.
Já as pernas a andar demoravam menos tempo a fazer o mesmo caminho que quando o fazia a correr. Quando ao olhar-se ao espelho viu que estava a ficar liso do lado esquerdo do corpo quando disse à mãe. Mãe tenho o corpo liso deste lado. A mãe respondeu que era normal sinal que estava a crescer e a tornar-se um homem como todos os outros homens.
Na escola reparou que quase todos os rapazes estavam a ficar com aquela mesma forma lisa de quem não se interroga. De quem aceita sem questionar. E achou natural a forma e a ausência de perguntas e não se importou.
E o tempo foi passando e ele foi crescendo e ficando liso de perguntar. Liso de querer diferente. Liso de aceitação. Conformismo e conforto.
Vivia entre homens quadrados e achava-se bem e achava-se igual e nada o distinguia dos outros e os outros a ele eram iguais. A mesma vida conforme e igual sem diferenças que os homens quadrados acham imperfeição.
Viveu muitos anos uma vida lisa que julgava perfeita. Fechado num corpo e mundo quadrados que julgava perfeitos porque a todos igual.
Mas um dia o tempo chegando ao fim tornou-se tempo de morrer e o fim ao aproximar-se dobrou-lhe o corpo mais quadrado e o corpo tornou-se a forma primeira a forma espanto e interrogação e olhou com olhos de medo as mãos cheias de nada e só então se perguntou da vida o porquê..
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Era um homem quadrado. Ao nascer, tinha a forma que todos os homens têm ao nascer. Corpo de interrogação. Mãos de agarrar o mundo e olhos de aprender.
Crescera e brincara como crescem e brincam as crianças que nascem do lado claro do mundo. Corpo redondo de beijos. Olhos e mãos de brincadeiras e boca de guloseimas.
Já as pernas, a andar, demoravam menos tempo a fazer o mesmo caminho que quando o fazia a correr. Quando ao olhar-se ao espelho, viu que estava a ficar liso do lado esquerdo do corpo, quando disse à mãe: - Mãe! Tenho o corpo liso deste lado. A mãe respondeu que era normal, sinal que estava a crescer e a tornar-se um homem como todos os outros homens.
Na escola reparou que, quase todos os rapazes estavam a ficar com aquela mesma forma lisa de quem não se interroga. De quem aceita sem questionar. E, achou natural a forma e a ausência de perguntas e não se importou.
E o tempo foi passando e ele foi crescendo e ficando liso de perguntar. Liso de querer diferente. Liso de aceitação. Conformismo e conforto.
Vivia entre homens quadrados e achava-se bem e achava-se igual e nada o distinguia dos outros e os outros a ele eram iguais. A mesma vida conforme e igual sem diferenças que os homens quadrados acham imperfeição.
Viveu muitos anos uma vida lisa que julgava perfeita. Fechado num corpo e mundo quadrados que julgava perfeitos porque a todos igual.
Mas um dia o tempo chegando ao fim tornou-se tempo de morrer e o fim ao aproximar-se, dobrou-lhe o corpo mais quadrado, e o corpo tornou-se a forma primeira, a forma espanto e interrogação e olhou com olhos de medo as mãos cheias de nada e só então se perguntou da vida o porquê..
“Dá valor ao que tens, esquece o que não tens.”
(.. 06 Mar’06)
domingo, 5 de março de 2006
Exercício Existencial Quadrado.
Escrevinhada por:
SepolOm
às
17:42
