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segunda-feira, 1 de maio de 2006

Histórias de sentires. (2)

(2 de 3) Aerograma para a minha Joana.

Tenho dificuldade em lidar com a paixão. Sinto sempre nos dias posteriores um amor desigual. A imbecilidade é minha. Está no meu brotar e não em ti.
O mal foi não pensar no que poderia acontecer se por milagre fizesses aquilo que te pedia que fizesses. O mal foi não ter esperado que me amasses tanto a mim como, eu desmedidamente te absorvi. Qualquer mal, nunca está só. Eu sim. Ainda mais só.
O meu amor não é capaz de ver. Têm defeito. É cego. Pior, é medroso. O meu amor foi feito para dar. Também, guardar segredo, sem tu saberes. Não foi feito para ser trocado. Ameaçado. Aterrorizado. Medido. Posto à prova. Um amor nunca se põe à prova. Não se brinca. Pensava que o meu amor estava protegido dessa felicidade. É um amor sozinho e grande. Não estava preparado para receber fosse o que fosse da tua parte. Nunca estarei habituado a receber se, não me fizerem sentir amado sem omissões. Ninguém gosta de sentir-se ameaçado no amor que sente, muito menos ser trocado por tanto dar-mos, sem conseguirmos dar o essencial. Umas vezes dá-se muito, que pode ser muito pouco para o outro. Outros dão pouco, seja algo, mas o outro o quer muito, porque nunca o teve, ou porque o quer em experiência.

Esta imaturidade é comum em muitas gentes. Têm o coração em rodopios, olhando para tudo e todos, mesmo que alguém sofra, a dor nunca é recíproca. Existem muitas gentes assim (devíamos viver sem as olhar), apesar da maioria destas, serem as mais belas merecedoras de um olhar, e merecermos os seus enganos por um dia as termos desejado. A estas gentes, só um dia quando a idade se notar, outra e qualquer gente irá penar, porque agora, já nada tem para dar.

Para ti Joana, estas palavras podem não ser extraordinárias, mas para mim, são.
Um dia torna-se difícil dizer “eu amo-te”, mas dizemos. Continuamos a dizer até um novo acordar. Sem contar com o deserto da minha alma eu sei o que sinto, e o que deixei de ver. Perco, afugentando as dores ruins.
Tenho saudades de ti Joana! Mas não me custa sofrê-las, comparado ao que sofria quando estavas comigo, deitada no meu ombro a sonhar os meus sonhos, agarrada a mim, o meu amor, o meu amor que de fogo me queimava, tanto era o meu amor por ti, e a certeza de perder-te. Perco, porque não fui capaz.
Digo tantas vezes, “não vou amar mais ninguém”! A fragilidade ceifa-me. Desde o princípio dos princípios que pergunto, como pudeste apaixonar-te por mim com tanta facilidade e tão pouco sofrimento? Por mim, que nada valho. Por mim que só sei dar pequenos nadas! Como é que eu acreditei num tal amor?
A culpa não foi tua. Tu és feita de mulher. Eu sou um homem, feito de assim assim. Ser homem é também saber que erro mais do que tu.
Fui levado a preocupar-me com os teus dias, a pôr-me a nu, escondendo o pouco que restava da minha solidão dentro de ti. Da solidão que era minha e de novo nasce em mim. Da solidão que se apaixonou por mim e não me larga, porque ninguém consegue amar-me mais e melhor. Nunca gostei da solidão, mas ela é nascida em mim.
Não te pedi nada, Joana. Não fui eu quem falou primeiro em ser feliz. Por isso, fomos felizes como te falei, até um dia os teus, os meus, sinais se esfumarem por aí.

“Quero fazer amor contigo, amor!” Dizes no princípio. Ensinei-te a fazer amor como eu sei e nada e tão pouco eu sei, “faço sexo com um abraço”, disse-te e aconteceu. Gostei. Gosto. Perdi. Perco sempre.

Chateia-me as vezes que se invoca o nome do amor em vão? Sou contra. Sempre fui contra. Como é possível em poucos dias alguém dizer que nos ama? A mim faz-me medo. Foi sempre esse medo que ainda hoje jaz em mim.
Não sei porquê, dou comigo quando já é tarde para negar, a dizer “amo-te”. Digo esta palavra nos meus silêncios tantas vezes, porque sei que o meu amor é desigual e, é nos meus silêncios que revolto a minha alma desigual, que quer viver, mas nunca encontra paz, no respeito e na confiança.
“Não faz mal…” digo eu. Um homem como eu assim assim, quando se sente abraçado, permite tudo. Lembro-me e hoje relembro em silêncio, o que outrora tantas vezes eu repetia: A carência é inimiga do amor. Pois.
Sempre te amei do meu jeito, e o meu jeito é o meu tudo. Tudo o que de bom posso oferecer e, é sempre tudo ou nada. Tudo ou nada. Sei que sabes Joana. Sei que sentes. Quando sofro, digo-te. Quando choro, digo-te. Se estou mal e necessito de um abraço, digo-te. Se me sinto só, digo-te. Se preciso de ti, digo-te. E tu, nunca estás. Não podes e eu não posso morrer assim.
Que mentiras posso eu dizer-te para ser um homem mais perfeito para ti?

Apetece-me ouvir a tua voz outra vez.

(.. 29Abr'06)

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