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quarta-feira, 3 de maio de 2006

Histórias de sentires. (3)

(3 de 3) Aerograma para a minha Joana.

As mulheres vaidosas fazem-me tesão. Para mim, não há maior afrodisíaco que a feminidade de uma mulher. Penso em fugir. Um dia apeteceu-me fugir em ti. Fugir não é muito diferente de sofrer. Seria bom se um encontro pudesse ser adiado até ao desaparecimento, do momento em que levamos com os pés. Sobretudo se esse acontecimento fosse quando estivesse feliz. É difícil não ser-se influenciado pela vida. Nunca sei se sou ou se quero ser. Claro que tenho o coração ensanguentado…

...(06_05_03 ; 20:04)

É a única condição que me faz escrever do que me cerca. É preciso estar muito triste para descrever seja o que for. As gentes não são felizes, mas sofrem da ideia da felicidade. Com quê? Com quem? Quando serei feliz? Porque não já? Ninguém pergunta porquê. Às vezes sinto que sofremos todos ao mesmo tempo. Deve haver momentos iguais para todos como um universo de sentimentos ruins, onde se sente a saudade, angústia, desgraças que só nos lembramos nós.
Cada um tem o seu engano de estimação. O meu é o menos vulgar – seguir em frente, sem voltar atrás, sabendo que perco sempre. Sei, nunca me dão a mão, e eu sigo por qualquer caminho. Nunca senti o meu coração, propriamente meu. Gostava de não ter coração – que outra pessoa qualquer, que gostasse de mim o tivesse. Gostava que fosses tu a levá-lo, Joana. Nunca sei quando é a última vez que nos vemos. Confundes-me. Todos os dias temo a vida que sinto. Não era e nunca fui assim. Sou um homem mais medroso do que assim assim. Protejo-me do passado que esqueço todos os dias. Na rua as caras conhecidas enchem-me o coração. Caminho entre as gentes de cabeça erguida. Gosto de andar na rua e olhar as gentes. Também sonho. Sonhamos todos com uma orientação qualquer. É isso que nos mantém. É isto que nos mantém alegres. Acredito.

Nós queríamos ser felizes. Eu quero.

Eu gostava tanto de te amar, Joana! Quando te tomo nos meus pensamentos, vai a noite escura ao encontro das gentes e das árvores, para nos verem, e eu penso que a minha alma te pertence. Pudera eu, meu amor, ou lá o que és, que pudesse pertencer a alguém. Há alturas que não se deve estar acordado. E eu acordo de olhos fechados vezes de mais. O tempo passa devagar, cheio de dor nos olhos abertos. O amanhã já não é no outro dia, mas num tempo que já não consigo cuidar. Ontem, era já! Lembras-te? Quando o tempo pára, é preciso dar por ele. Parado, conseguimos sentir-nos. Fora do nosso controlo, é dor. Preocupo-me com as noites que durmo mal, nunca como outrora que nem dava pelo acordar, acordando quando tinha de acordar, e respirava nesse mesmo acordar. Que pena. Joana! Onde ficas? A única coisa que sei fazer é sentir. Sinto-te e sorrio sempre. Preciso que me ensines a enganar-me.
Preciso que me ensines a interromper. Deixa-me, sair aqui sozinho. Estou sozinho de mais. Quando é que não estive? Nas minhas estrelas não há noite nem amor. As minhas mãos estão vazias. Ocupa-as.

Vem depressa, cara bonita, antes que seja tarde.

...(06_05_05 ; 13:15)

O meu coração tem a lembrança curta e as minhas mãos só servem para te tocar, agora só tocar-me. Abriga-te, guarda-te, justifica-te no meu pequeno grande peito que outrora o cheiravas.
Esse, o tempo, vai mal para quem foge só por fugir – ajuda, quem desistiu de alguém por quem procurar.
É pela cidade que ando, mas quem é que me vê? Quem me pôs aqui a perguntar-te? Deixa o teu tempo de lado. Põe o teu amor de parte. Escreve de novo para mim! Olha! Ainda estou por aqui e não por aí.

Se alguém me tivesse levado a algum lado, eu outrora, tinha ido. De coração leve, sem avisar. Hoje como ontem, sabes que “pedreguei”, nunca fui. Sou infeliz de ser fiel na ruindade do meu tempo. Apetece-me ser levado na tempestade e ser arremessado em qualquer outro lugar que não este. Não durmo há tantos dias, acordando só para te olhar e repetir os teus nomes, os velhos e os que foram nascendo. Depois, ainda consigo juntar de leve, o meu e o teu nome e durmo sem nunca me deitar. Repito-me, Joana. Sorrio.
Se houvesse um amor abandonado à sorte, só Deus sabe a companhia que me faria, se eu deixasse. Quantas vezes ao certo eu te perdi, para as mesmas vezes enlouquecer de tanto te chamar? Quando quero viver, nunca estás. Tu dirás. Eu sinto.
Agora que a porta me fechaste, quem me abrirá sem eu de novo me perder? Se eu pudesse, era já, e esta dor desaparecia.

...(06_05_09 ; 16:04)

Mais um dia. Tudo, olhando deste lugar, correu mal, menos o amor. A vida é simples e muito fácil de a perder. Gostei de te abraçar.
Se alguém soubesse do que digo e do que quero, e aceitasse o que eu decidisse aceitar do pouco de mim que tenho para dar, então sim entregar-me-ia, a essa pessoa, e seria dela, com as letras e os cuidados que tiver, para sempre. As palavras não me pertencem mas, também não pertencem a ninguém.Eis a minha vida incompleta, acabada de começar. Suposições que ainda sou capaz de fazer. Se eu tivesse tempo. Um sítio. Jeito. Imaginação. Alguém. Maneira. Aí de ti, se eu tivesse outras maneiras! Vontade. Paciência. Contaria outra história, certamente não esta, mas outra que tivesse um final mais capaz de sofrer. O que tu suportas e vives como natura, eu nunca consigo.

Continua. Vive. Sinto o teu meu abraço em mim. Lembro. Vivo, viverei.

(.. 29Abr'06)

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