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segunda-feira, 1 de maio de 2006

Histórias de sentires. (1)

(1 de 3) Aerograma para a minha Joana.

A verdade do teu verdadeiro sonho está enraizado dentro de ti, e esse, eu nunca o descobri, Joana. Não quero perguntar-me, porque não quis perceber ou saber.
É amargo, dói, mas reconheço que perdi o nosso caminhar, o nosso tudo.
Não sei onde falhei mas, agora também já não interessa nada, sinto, perco-te, e eu deixo que vás.
As tuas lágrimas refrescam-me. Lambi-te os cantos dos olhos, na última vez que me tiveste. Choraste, pensando em muitas coisas que dóiem, menos em mim. Dizer-te “não chores” funciona sempre, mas eu não o disse, porque apesar da tua dor, a dor não era por mim. Lambi-te as lágrimas, gostei.

“ As mulheres depois de chorarem, ficam com vontade de fazer amor.
… só um homem anormal não aproveita…”


Eu não aproveitei a foda, nem me aproveitei de ti. Sou um merdas, um merdoso. Sabes bem como fujo das coragens.
Esta última vez que nos tivemos, disseste com uma voz diferente já no final da tarde, ainda naquela cama: “Hoje gostei muito de te ter!”. “Ainda bem que ficaste bem, mas eu ainda não!” Disse-te eu. Sorrimos, e eu sorri ainda mais. Era um dia diferente, e gostamos muito de fazer a diferença.
Lembrei-me, lembro-me todos os dias, em qualquer momento e lugar, que seis ou sete horas do nosso sexo, no nosso abraço, o tempo não nos chega… Mas hoje, gostei de ouvir a tua voz “Hoje gostei muito de te ter!”. Sorri. Viste. Depois para a minha dor ser ainda maior, ouvi da tua boca ainda molhada, “Fiquei muito satisfeita!”. “Foste um querido! És sempre! Mas hoje estou consolada de tantos pequenos nadas que me ofereces!”. De vez em vez enquanto falavas e choravas, lembrava-te, calando-te com a minha boca, para que me olhasses.
Hoje, quer queira ou não, sei, sinto, que não sou talhado para te merecer.
Sou muito fácil de ser conquistado depois de bem olhado. Sou muito frágil. Tão frágil. Não gosto que me chamem um romântico fora de prazo, mas sei que sou frágil, com um coração de trapo.

Ainda estás presente, e já estou cheio de saudades, porque sinto que não estás em mim.
Os dias passam, como os meses e os anos se foram. É degradante sentir-me assim. Um de nós já caminha noutra direcção qualquer e eu como dono do meu escrevinhar, sei que não sou eu. Encontraste um novo alento por ali. É justo! Eu não fui capaz.
Levei muito tempo a acreditar que podia ser o teu melhor, mais tempo ainda para perceber que os ex-namorados não eram assim tão ex como eu queria acreditar. Uns são claramente recentes ou actuais, outros ocasionais, ou regulares. Até à presumíveis, duvidosos, futuros e potenciais.
Sabe Deus o que me custa esquecer, fingir, ignorar, que tu existes mas, e porque não dizer-te neste momento, estima os melhores!

Eram incríveis os sinais, e eu nunca quis saber deles. Dizem que não devemos saber de nada do nosso amor (já escrevi que não penso assim). Olhar os sinais de uma vida passada é bom para melhor edificação dos nossos sonhos, das nossas relacções ainda em expectativas.
O que fui sabendo e sentindo, começou a dar cabo de tudo e de mim. Quis saber coisas de ti. Estupidamente, pensei que pudesse saber tantas outras coisas para ultrapassar os meus medos, as minhas merdas… Tantos dias sonhei. Partilhei-te outras tantas vezes, "vamos ser felizes".
Dói muito saber que não gostam de nós, ou que o empenho é desigual.
Ninguém é culpado, muito menos tu. Os meus silêncios tropeçam-me nos sonhos ainda por nascer… Falhei não querendo saber dos sinais. Troquei-te num dia, por meia dúzia de amigas que sonhava, enquanto elas brincavam às escolhas. Olhei-te! Gostei do que vi e do que senti.

Qualquer relação só cresce e é forte se coexistir, confiança e respeito um pelo outro. Não consegues o respeito porque a tua medida é desigual. Eu não confio pelo mesmo critério. Ainda bem que não te mudei em nada, e tu continuas a ser a mulher fantástica que conheci num dia que passou cheio de azul.
A confiança que perco é a tua razão de vida. Está em ti, faz parte de ti. És assim. Eu sou assim. Não mudo para ser homem, não mudes para eu te ter.

… “As mulheres são todas diferentes.
Quando se perde uma mulher, é uma vida… ... Mas são as mulheres que acabam por ter razão.” …


Uma vez disse-te: Tens uns olhos muito bonitos, mas não consigo olhar para eles durante muito tempo. São olhos de olhar, não são olhos de ver. Num outro momento, achei que tinhas olhos da cor de mar sujo. Não percebeste, não te lembras. Que coisas sinto que não entendes? Que coisas olho que não são? Verás em mim o que eu vejo em ti? Desses momentos, pergunto… Que faço eu aqui?

Hoje lembrei-me de escrever estas merdas. Sorrio. Podia ser ontem ou já faz tempo, e porque não amanhã? Queria simplesmente dizer-te que perdoei tudo hoje, desde que te olhei na primeira vez.
O meu verdadeiro trabalho, emprego que me ocupava o dia inteiro, eras tu. Eu cansava-me tanto e gosto tanto do que faço, que normalmente também passei a ser algum do teu trabalho. Será isto que chamam de amor? É a confiança no pior sentido, sei, mas é pouco nos grandes amores.

Gostava de te ver, sentir, envelhecer junto de ti em mim, como tantas vezes partilhei-te esses meus sentires. Queria a vida inteira, por um antigo beijo teu. Aí…! Pudesse eu, matar as pessoas no meio de nós e o mundo ser só nosso! Mas, para que quero eu qualquer coisa que não possa partilhar em confiança com as outras gentes, se vivo de partilhas?

Foi tão pouco, o bom!

(.. 29Abr'06)

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